O Cerrado é conhecido como a savana mais biodiversa do mundo, mas também como um ambiente de extremos. Sol intenso, chuvas concentradas e longos períodos de seca colocam à prova até as espécies mais resistentes. Ainda assim, a vegetação nativa — com troncos retorcidos e folhas espessas — não apenas sobrevive, como floresce em meio à aridez. O segredo está escondido debaixo da terra: as raízes profundas.
A engenharia natural das raízes do Cerrado
As árvores do Cerrado desenvolveram um sistema radicular impressionante. Algumas espécies, como o pequi (Caryocar brasiliense) e o barbatimão (Stryphnodendron adstringens), possuem raízes que podem ultrapassar 20 metros de profundidade. Elas funcionam como bombas naturais de água, alcançando lençóis freáticos e garantindo umidade mesmo durante os meses mais secos.
Resistência que sustenta a vida
Essas raízes não apenas mantêm as árvores vivas: elas alimentam todo o ecossistema. Ao extrair e redistribuir água, contribuem para a manutenção da umidade do solo e até para a formação de nascentes. Esse mecanismo ajuda a explicar por que o Cerrado é conhecido como “caixa d’água do Brasil”, abrigando nascentes de grandes bacias hidrográficas, como as do São Francisco, Tocantins e Paraná.
Adaptações visíveis: folhas e troncos
Além das raízes, outras adaptações ajudam as plantas a enfrentar o clima severo. Folhas pequenas e revestidas por cera reduzem a perda de água. Troncos tortuosos e cascas grossas protegem contra o fogo e o calor excessivo. O conjunto dessas características dá à paisagem do Cerrado um aspecto singular — de árvores que parecem esculpidas pela própria resistência.
Um alerta sobre desmatamento
Quando o Cerrado é desmatado para abrir espaço a monoculturas e pastagens, essa rede subterrânea de raízes é destruída. O solo perde sua capacidade de reter água e regenerar, comprometendo nascentes e ecossistemas vizinhos. Restaurar áreas degradadas exige décadas — e, muitas vezes, a regeneração natural depende da presença dessas espécies de raízes profundas.
Trilha da resiliência
Caminhar por trilhas em regiões de Cerrado, como a Chapada dos Veadeiros ou o Parque Nacional de Brasília, é testemunhar a força da natureza em cada detalhe. As árvores de raízes profundas nos lembram que a resistência está naquilo que não se vê — e que proteger o Cerrado é também garantir a sobrevivência das águas e da vida que brota delas.

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