Enquanto o campo amarela e a poeira toma as estradas, algumas plantas do Cerrado fazem exatamente o contrário do que seria esperável: florescem. E ao fazê-lo, colorem o bioma com uma generosidade que poucos espetáculos naturais rivalizam.
Há um erro de percepção muito comum sobre o Cerrado de junho. Quem olha para o campo aberto seco, para o capim-palha, para as árvores sem folha, conclui rapidamente que o bioma está parado — em espera, em compasso de suspensão. Essa conclusão é errada. O bioma não está parado. Está redistribuindo energia. E uma parte expressiva dessa energia está indo exatamente para o lugar mais inesperado: as flores.
A estratégia de florescer na seca não é exclusiva dos ipês, que já celebramos em edições anteriores do Trilhas do Planalto. É uma estratégia compartilhada por dezenas de espécies do Cerrado que descobriram, ao longo de milhões de anos de evolução, que a seca é o melhor momento para se reproduzir. Menos folhagem concorrendo pela atenção dos polinizadores. Menos chuva desfazendo o pólen. Menos competição. Mais visibilidade. É marketing evolutivo de precisão cirúrgica.
A quaresmeira-do-cerrado: o roxo que não termina com a quaresma
A maioria das pessoas conhece a quaresmeira pela floração no início do ano — aquelas copas roxas que colorem as ruas das cidades brasileiras entre fevereiro e abril, dando nome à planta pela coincidência com o período religioso da quaresma. Mas no Cerrado, há uma espécie menos conhecida e igualmente espetacular que segue um calendário diferente.
A Pleroma candolleanum, conhecida como quaresmeira-do-cerrado, é nativa do Cerrado e ocorre nos estados da Bahia, Distrito Federal, Goiás e Minas Gerais, entre 900 e 1.000 metros de altitude. Pode atingir de 2 a 9 metros de altura e seu período de floração e frutificação se inicia em junho e termina em setembro.
Isso significa que, enquanto as quaresmeiras da Mata Atlântica já encerraram sua floração há meses, a quaresmeira-do-cerrado está começando a sua exatamente agora. O momento de sua floração, no auge da estação seca do Cerrado de junho a setembro, é uma estratégia ecológica brilhante. Nesse período, a maioria das outras plantas está em dormência ou com poucas flores, e a vegetação ao redor está seca e de cores pálidas. Sobre esse fundo neutro, o roxo intenso da quaresmeira-do-cerrado funciona como um sinal luminoso impossível de ignorar para abelhas, borboletas e beija-flores que precisam de néctar para sobreviver na estiagem.
Na dinâmica de sucessão ecológica, a quaresmeira-do-cerrado se comporta como uma espécie pioneira e secundária inicial. Seu crescimento é rápido e ela precisa de sol pleno para se desenvolver, o que a torna uma colonizadora nata de clareiras, áreas de deslizamento nas margens dos rios e bordas de estradas. Ao crescer, ela sombreia o solo, estabiliza as margens dos rios e cria um ambiente mais propício para que outras espécies de crescimento mais lento possam se estabelecer sob sua proteção.
Isso a torna uma espécie de dupla importância ecológica: além de fornecer flores e néctar em um momento de escassez, ela é uma das primeiras plantas a chegar em áreas perturbadas, iniciando o processo de restauração da vegetação. Uma aliada tanto da fauna quanto da recuperação do próprio bioma.
O pau-terra: o amarelo que rivaliza com o ipê
Quem percorre estradas de Goiás ou do Distrito Federal em junho frequentemente avista árvores com copas completamente amarelas no meio do campo seco e confunde com ipês. Muitas vezes, trata-se do pau-terra (Qualea grandiflora e Q. parviflora) — um dos arbustos e árvores mais abundantes do Cerrado, com flores de um amarelo-ouro que explodem nas copas sem folhas com uma exuberância que rivaliza com qualquer ipê.
O pau-terra é uma das espécies mais características e ecologicamente importantes do bioma. Ocorre em praticamente todas as fitofisionomias do Cerrado, do campo sujo ao cerradão, e sua floração em junho e julho é um dos eventos fenológicos mais marcantes do bioma nesse período. As flores produzem néctar em abundância e atraem uma diversidade enorme de abelhas nativas e mamangavas, que nelas encontram uma das principais fontes de alimento disponíveis no início da seca.
Além do valor para a fauna, o pau-terra tem raízes profundas e sistema subterrâneo robusto que o torna uma das espécies mais resilientes do Cerrado após perturbações — rebrotando com vigor após o fogo e resistindo à seca mais severa. Em projetos de restauração ecológica do bioma, é frequentemente uma das primeiras espécies introduzidas exatamente por essa combinação de resiliência, velocidade de crescimento e valor ecológico.
A canela-de-ema: a vara de fogo do campo
A canela-de-ema é um pequeno arbusto que colore de roxo o Cerrado nos meses de março a junho, com área de distribuição bastante grande, englobando muitos estados como Bahia, todo o Centro-Oeste, Minas Gerais e São Paulo.
O nome popular — canela-de-ema — é uma referência à haste erguida e cilíndrica da planta, que lembra a perna da ema. É uma planta de porte baixo, com hastes rígidas que se erguem verticalmente do solo, terminando em pequenas flores lilases que cobrem a haste de cima a baixo. No campo aberto de junho, com tudo ao redor amarelo e cinzento, uma canela-de-ema florida é um sinal visual de uma precisão quase surreal — um estilete roxo apontado para o céu.
Florescer na seca não é uma anomalia no Cerrado. É uma estratégia. Quando todo mundo parou, você se destaca. Quando todo mundo está silencioso, sua voz ecoa mais longe. As plantas do Cerrado entenderam isso há milhões de anos — e aplicam com uma elegância que nenhuma estratégia de marketing humana conseguiu superar.
O que essas flores significam para a fauna
Para entender a importância ecológica das flores de junho no Cerrado, é preciso pensar no que a seca faz com a disponibilidade de recursos para os polinizadores. Na estação chuvosa, flores estão em todo lugar — a competição pela atenção das abelhas e borboletas é intensa, e o néctar e o pólen são abundantes. Com a chegada da seca, a maioria das plantas fecha a produção floral. A oferta cai drasticamente.
É exatamente nesse momento que a quaresmeira-do-cerrado, o pau-terra, a canela-de-ema e dezenas de outras espécies florescem. Para as abelhas nativas — especialmente as sem ferrão, que não hibernam e precisam de recursos o ano inteiro —, essas flores não são opcionais. São a diferença entre a sobrevivência e o colapso da colônia.
Para observar em campo: As flores de junho do Cerrado são mais fáceis de encontrar em áreas de campo sujo, campo limpo e bordas de cerrado sensu stricto. A quaresmeira-do-cerrado prefere solos de altitude, sendo mais comum nas chapadas de Goiás e nas serras de Minas Gerais. O pau-terra é praticamente onipresente em qualquer trecho de Cerrado preservado. E a canela-de-ema ocorre nos campos abertos, frequentemente em manchas que cobrem grandes extensões e transformam trechos inteiros do campo em um tapete lilás que o vento balança suavemente. Se você passar por uma dessas manchas em junho, pare o carro. Vale o desvio.
Equipe Trilhas do Planalto

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