Por trás das bandeirinhas coloridas, do forró e da quadrilha, há uma história muito mais antiga e muito mais interessante do que a maioria das pessoas imagina. A festa junina nasceu na Europa — mas o que comemos nela é puro Cerrado e América.
Existe uma cena que se repete em todo arraial junino do Centro-Oeste em junho: alguém abre uma panela de pamonha, o vapor sobe, e o cheiro imediato e inconfundível do milho cozido no próprio leite toma o ambiente. Ao lado, uma bandeja de paçoca de amendoim, um pote de doce de pequi, um copo de quentão com gengibre. A sanfona tocando ao fundo, as crianças vestidas de caipira, as bandeirinhas balançando na brisa fria do inverno goiano.
Esse cenário parece completamente brasileiro — e é. Mas é brasileiro de uma forma muito mais complexa e fascinante do que aparenta. Porque cada um daqueles alimentos tem uma história que começa muito antes da festa junina, muito antes do Brasil colonial, muito antes da chegada dos europeus. Começa no próprio bioma que habitamos.
O milho que veio das Américas e ficou no mundo
O milho é protagonista absoluto das festas juninas porque junho é mês de colheita. Dele vêm pamonha, curau, bolo de milho, milho cozido, pipoca e cuscuz. Mas antes de ser símbolo da festa junina, o milho foi, por milênios, um dos alimentos mais importantes dos povos indígenas que habitavam as Américas — incluindo os que viviam no Cerrado e em suas bordas. Sistema FAEG
O milho foi cultivado no México entre 7 mil e 10 mil anos atrás a partir de uma planta de grande porte chamada teosinto. Dali, sua cultura se espalhou por todo o continente americano ao longo de milênios, chegando ao território que hoje é o Brasil Central centenas de anos antes da chegada dos portugueses. Os povos do Cerrado não apenas consumiam o milho — eles o cultivavam, o selecionavam, desenvolviam variedades adaptadas ao solo ácido e ao regime de chuvas do bioma. Variedades que, em muitos casos, desapareceram com as comunidades que as mantinham.
Quando os portugueses chegaram e encontraram o milho, trataram de levá-lo para a Europa e para a África — onde ele se tornaria um alimento fundamental em poucos séculos. O milho que hoje alimenta metade do planeta saiu das Américas nos porões dos navios coloniais. E voltou para o Brasil nas festas juninas que os colonizadores trouxeram de Portugal — mas que aqui ganharam o milho como protagonista absoluto porque era junho, e em junho colhia-se milho.
A mandioca: a raiz que salvou o Brasil colonial
A mandioca e seus derivados estão presentes nas festas juninas como o bolo de aipim e a tapioca, refletindo a tradição indígena. Mas a presença da mandioca vai muito além da festa junina: ela é um dos pilares da alimentação brasileira há milênios, e sua história no Cerrado é uma das mais importantes da culinária americana.
A mandioca (Manihot esculenta) é uma planta originária do Brasil — provavelmente domesticada na região da bacia amazônica, mas amplamente cultivada pelos povos do Cerrado há pelo menos 8 mil anos. Sua resistência à seca a tornava uma cultura particularmente valiosa no Planalto Central: plantada antes das chuvas, sobrevive na seca com suas raízes tuberosas acumulando amido, e pode ficar no solo por meses ou anos aguardando o momento da colheita.
Os povos indígenas do Cerrado desenvolveram técnicas sofisticadas para processar a mandioca brava — que contém ácido cianídrico em concentrações letais —, transformando-a em farinha, beiju, tucupi e dezenas de outros produtos. Quando os colonizadores chegaram e se depararam com o interior do Brasil, foi a farinha de mandioca dos índios que os alimentou. Sem ela, as expedições bandeirantes pelo Cerrado teriam sido impossíveis.
A pamonha, o curau, a farofa, o bolo de aipim — cada prato da festa junina que leva milho ou mandioca é um tributo involuntário aos povos indígenas que cultivaram e selecionaram essas plantas por milênios antes de qualquer bandeirinha colorida existir.
O amendoim e a paçoca do sertanejo
A paçoca de amendoim é de origem indígena. A primeira versão conhecida era preparada com carne seca e farinha de trigo, nutritiva e saudável, consumida pelos tropeiros viajantes que atravessavam a região em cima de mulas. A versão mais popular, feita com amendoim, surgiu durante o período colonial, época em que os alimentos eram misturados à farinha de mandioca e socados no pilão, com o objetivo de fazê-los render mais.
O amendoim (Arachis hypogaea) é outra planta genuinamente americana — originária da região que hoje compreende partes da Bolívia e do noroeste da Argentina, mas cultivada por povos indígenas em toda a América do Sul, incluindo os que habitavam as savanas e campos do Cerrado. Sua proteína de alta qualidade, sua gordura saudável e sua capacidade de se desenvolver em solos pobres e ácidos — exatamente o tipo de solo que domina o Cerrado — o tornavam uma cultura quase perfeita para o Planalto Central.
A paçoca que os goianos comem na festa junina, socada no pilão com açúcar e sal, é uma versão açucarada e simplificada de um alimento que os tropeiros do século XVIII carregavam nas selas para sobreviver nas longas travessias pelo interior do Brasil. É comida de estrada virada celebração. É o Cerrado na boca, com embrulho de papel crepom.
O pequi na festa: quando o Cerrado entra no arraial
Nas festas juninas do interior de Goiás, Minas Gerais e Mato Grosso, um ingrediente aparece que não se vê nos arraiais do litoral: o pequi. Arroz com pequi, frango com pequi, doce de pequi, licor de pequi — no Centro-Oeste, o pequi é festa em qualquer época do ano, mas em junho, com os últimos frutos da safra ainda disponíveis e o inverno exigindo comidas mais encorpadas, ele ocupa seu espaço natural na mesa do arraial.
O pequi na festa junina é, nesse sentido, o momento em que o Cerrado mais genuíno aparece dentro de uma celebração que começou em Portugal como comemoração de santos católicos. É a camada mais profunda da identidade do Centro-Oeste emergindo através da comida — e resistindo, stubbornly, à padronização das festas juninas urbanas que substituem o pequi pelo cachorro-quente e o quentão de gengibre nativo pelo vinho tinto importado.
A festa que virou do avesso: A ironia mais bonita da festa junina no Brasil Central é que ela nasceu da comemoração do solstício de verão no hemisfério norte — quando os europeus celebravam São João no calor de junho. Aqui, celebramos São João no inverno. A fogueira que em Portugal esquentava a noite quente de junho aqui esquenta as madrugadas frias do Planalto. E os alimentos que deveriam celebrar a colheita europeia foram substituídos pelos alimentos que os povos americanos colhiam — e que, sem precisar de calendário nem de santos, já eram sagrados muito antes da festa junina existir.
Equipe Trilhas do Planalto

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