Do Cerrado para a mesa: conheça frutos nativos que carregam a biodiversidade e a cultura do Centro-Oeste

Pequi, baru, araticum, cagaita, mangaba e jatobá revelam como a biodiversidade do bioma também está presente na alimentação e na cultura regional

Quando se fala em Cerrado, as primeiras imagens que costumam surgir são as de árvores tortuosas, campos abertos, veredas, cachoeiras e animais como o lobo-guará e o tamanduá-bandeira.

Mas existe outra maneira de conhecer o bioma: pelo paladar.

O Cerrado brasileiro abriga uma grande variedade de espécies frutíferas nativas que há gerações fazem parte da alimentação e da cultura das populações do Centro-Oeste. Pequi, baru, araticum, cagaita, mangaba, jatobá e buriti são alguns dos exemplos mais conhecidos.

A Embrapa Cerrados mantém, há décadas, pesquisas sobre o aproveitamento dessas espécies. Levantamentos realizados na região identificaram dezenas de espécies nativas com potencial alimentar, além de outros usos econômicos.

Mais do que ingredientes regionais, esses frutos representam uma ligação entre biodiversidade, alimentação, economia e conservação.

O pequi que virou símbolo

Poucos frutos estão tão associados ao Cerrado quanto o pequi.

Com aroma e sabor marcantes, ele aparece em preparações tradicionais da culinária do Centro-Oeste e também movimenta cadeias econômicas ligadas ao extrativismo.

Mas o pequizeiro não existe apenas para fornecer alimento às pessoas.

Como qualquer espécie frutífera nativa, seus frutos também fazem parte da dinâmica ecológica do ambiente. Animais podem consumir seus recursos e participar, direta ou indiretamente, da dispersão das sementes.

Isso significa que uma árvore produtora de pequi representa muito mais do que aquilo que chega à cozinha.

Ela é parte de um habitat.

E, quando árvores adultas são retiradas, a perda não se limita à produção daquele ano. Dependendo da espécie e das condições locais, pode levar anos até que uma nova árvore alcance maturidade suficiente para produzir frutos.

Baru: a castanha do Cerrado

Outro fruto que ganhou espaço além das regiões onde é tradicionalmente consumido é o baru.

Sua amêndoa pode ser utilizada torrada e em diferentes preparações alimentícias. O fruto também despertou interesse comercial e científico justamente por seu potencial de aproveitamento.

A Embrapa inclui o baru entre as principais fruteiras nativas do Cerrado estudadas quanto à propagação, domesticação e utilização.

Mas existe uma questão importante quando se fala em transformar produtos da biodiversidade em mercadoria: é necessário garantir que a exploração não comprometa a regeneração das próprias espécies.

O uso econômico pode contribuir para valorizar uma árvore nativa, mas precisa caminhar junto com boas práticas de manejo e conservação.

Araticum: sabor e identidade

O araticum é outro representante importante da flora frutífera do Cerrado.

Seu fruto possui polpa aromática e pode ser consumido in natura ou utilizado em doces, sorvetes, geleias e outras preparações.

Pesquisas da Embrapa já identificaram o araticum entre espécies nativas com potencial de aproveitamento alimentar e econômico.

O interesse por essas espécies também ajuda a mostrar que a biodiversidade brasileira possui possibilidades econômicas que vão muito além da exploração convencional da terra.

Em vez de substituir a vegetação nativa, determinados modelos de aproveitamento podem buscar justamente a manutenção das árvores existentes.

Cagaita: um fruto delicado

A cagaita é outro exemplo de espécie tradicional do Cerrado.

Seus frutos podem ser utilizados em diferentes preparações e são conhecidos regionalmente há muito tempo.

Mas a espécie também ajuda a lembrar que nem todo fruto nativo deve ser tratado como uma cultura agrícola convencional.

Cada planta possui seu próprio ciclo.

Floração, frutificação, germinação e crescimento acontecem em ritmos específicos. A domesticação e o cultivo dessas espécies exigem conhecimento técnico.

Experimentos conduzidos pela Embrapa Cerrados mostraram diferenças importantes entre espécies nativas quanto à sobrevivência, crescimento, floração e frutificação em condições de cultivo.

Ou seja: conhecer o fruto é apenas o primeiro passo. Para transformar uma espécie nativa em uma cadeia produtiva sustentável, é preciso conhecer também a biologia da planta.

Jatobá, mangaba e buriti ampliam a lista

A diversidade não termina nos frutos mais conhecidos.

Jatobá, mangaba e buriti também fazem parte do repertório de espécies nativas aproveitadas no Cerrado.

O buriti merece atenção especial porque está fortemente associado às áreas úmidas e às veredas.

Sua presença revela uma relação importante entre biodiversidade, água e cultura.

Já o jatobá possui usos tradicionais diversos e aparece em pesquisas relacionadas ao aproveitamento de espécies nativas.

A variedade é tão grande que levantamentos históricos realizados na região identificaram cerca de 120 espécies nativas utilizadas ou potencialmente úteis em diferentes áreas, incluindo alimentação, madeira, ornamentação, uso medicinal e outros fins.

Quando a gastronomia ajuda a conservar

Existe uma ideia importante por trás do consumo de produtos nativos: aquilo que possui valor para as pessoas pode ganhar também maior interesse de conservação.

Mas isso não acontece automaticamente.

O simples fato de um fruto ter valor comercial não garante a preservação da espécie.

É necessário que a cadeia produtiva seja organizada de maneira que a retirada dos frutos, sementes ou outras partes da planta não comprometa sua regeneração.

Também é importante preservar as áreas onde essas árvores ocorrem naturalmente.

A conservação da biodiversidade não pode ser substituída por algumas árvores plantadas isoladamente.

A fauna também está à mesa

Existe ainda um detalhe que muitas vezes passa despercebido.

Quando uma pessoa coleta um fruto do Cerrado, ela pode estar utilizando um recurso que também faz parte da alimentação da fauna.

A relação entre plantas frutíferas e animais é fundamental para o funcionamento do ecossistema.

Aves e mamíferos podem consumir frutos e transportar sementes. Em alguns casos, esse processo ajuda as plantas a ocupar novos espaços.

Assim, uma árvore frutífera pode cumprir simultaneamente funções ecológicas e culturais.

Ela alimenta pessoas.

Alimenta animais.

Participa da dispersão de sementes.

E ajuda a manter a diversidade da paisagem.

O desafio é valorizar sem destruir

O Cerrado possui enorme potencial para o desenvolvimento de cadeias baseadas em produtos da sociobiodiversidade.

Mas esse potencial precisa ser acompanhado por políticas de conservação, pesquisa, assistência técnica e valorização dos conhecimentos tradicionais.

Também é importante evitar a ideia de que todo fruto nativo deve necessariamente ser transformado em produto comercial.

Algumas espécies têm importância ecológica que pode ser muito maior do que seu valor de mercado.

A floresta em pé — ou, no caso do Cerrado, a vegetação nativa preservada — precisa continuar sendo reconhecida como patrimônio.

Comer Cerrado é também conhecer Cerrado

Talvez essa seja a principal lição.

Ao provar um fruto nativo, não estamos apenas experimentando um sabor diferente.

Estamos entrando em contato com uma história que envolve plantas, animais, comunidades, conhecimento tradicional, pesquisa científica e território.

O pequi, o baru, o araticum, a cagaita, o jatobá, a mangaba e tantos outros frutos contam histórias diferentes.

E todos ajudam a mostrar que o Cerrado não é apenas uma paisagem que se observa de longe.

Ele também está na cultura, na economia e na mesa de quem vive no Centro-Oeste.

Valorizar esses sabores é uma maneira de valorizar a biodiversidade que os torna possíveis.

Mas, para que esses frutos continuem existindo no futuro, existe uma condição indispensável:

é preciso conservar as árvores que os produzem e os ambientes onde elas vivem.


Equipe Trilhas do Planalto

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