Cerrado como “hiperdominante”: poucas espécies comandam a floresta

O Cerrado, conhecido como a “caixa d’água do Brasil” e segundo maior bioma do país, abriga uma biodiversidade vegetal impressionante. No entanto, um estudo de 2025 revelou um dado surpreendente: menos de 2% das espécies de árvores são responsáveis por quase metade da vegetação do Cerrado. Entre elas, destaca-se a Qualea parviflora, também chamada de pau-terra, que se mostrou extremamente dominante.

Esse fenômeno, chamado hiperdominância, levanta questões importantes sobre a resiliência do bioma e os riscos ambientais caso essas espécies-chave sejam comprometidas.

O que é hiperdominância?

O termo é usado para descrever situações em que poucas espécies de árvores ocupam uma fatia desproporcional da biomassa de um ecossistema. Esse conceito já havia sido observado na Amazônia, mas seu registro no Cerrado é mais recente.

Na prática, isso significa que, embora a diversidade do bioma seja alta, a maior parte da paisagem é composta repetidamente por um número muito pequeno de espécies.

Por que algumas espécies dominam tanto?

A hiperdominância no Cerrado pode estar ligada a fatores como:

  • Adaptação ao fogo: espécies como a Qualea parviflora possuem casca espessa e raízes profundas, resistindo a queimadas frequentes.
  • Eficiência no uso da água: conseguem sobreviver a longos períodos de seca, característica fundamental no clima do bioma.
  • Capacidade de regeneração: brotam novamente mesmo após distúrbios ambientais.

Outros exemplos de espécies possivelmente hiperdominantes incluem o Byrsonima verbascifolia (murici) e o Vochysia thyrsoidea.

Riscos de depender de poucas espécies

Embora a hiperdominância possa indicar resiliência, também representa fragilidade. Se uma espécie dominante for atingida por pragas, doenças ou mudanças climáticas severas, o impacto no ecossistema será enorme. Isso pode comprometer:

  • Ciclos de polinização e dispersão de sementes.
  • Equilíbrio de nutrientes no solo.
  • Disponibilidade de abrigo e alimento para a fauna.

Conservação focada em espécies-chave

Proteger as espécies hiperdominantes não significa negligenciar as demais. Pelo contrário: a conservação deve equilibrar a proteção das “espinhas dorsais” do ecossistema com a preservação da diversidade.

Ações possíveis incluem:

  • Mapeamento das espécies hiperdominantes e suas áreas de ocorrência.
  • Monitoramento genético para manter a variabilidade.
  • Restauração ecológica priorizando espécies-chave e suas interações com outras plantas.
  • Educação ambiental para comunidades e proprietários rurais sobre o valor ecológico dessas árvores.


Equipe Trilhas do Planalto

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