No coração do Cerrado, cada passo pode ser o início de uma nova floresta. Animais como tatus, veados, tamanduás, lobos-guarás e aves frugívoras são os verdadeiros “jardineiros” do bioma — eles transportam, enterram e dispersam sementes por trilhas naturais e ecológicas, garantindo a regeneração das paisagens que chamam de lar.
A trilha como caminho da vida
Pesquisadores da UnB e da Embrapa Cerrados identificaram que diversas espécies utilizam trilhas abertas por humanos e animais como rotas preferenciais de deslocamento. Nessas passagens, os frutos consumidos durante o trajeto são defecados ou descartados com as sementes intactas, em locais propícios à germinação.
Segundo os estudos, até 70% das sementes dispersas por mamíferos e aves no Cerrado germinam com sucesso — especialmente nas margens de trilhas, onde há maior luminosidade e solo revolvido.
Essas trilhas, portanto, não são apenas caminhos: são corredores ecológicos vivos.
Fauna que semeia o futuro
Entre os grandes dispersores de sementes estão:
- Lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) – considerado o principal jardineiro do Cerrado, espalha sementes de araticum, lobeira e araçá.
- Tucano-toco (Ramphastos toco) – transporta sementes em longas distâncias, graças à sua dieta rica em frutos.
- Cutia e tatu-peba – enterram e esquecem sementes, contribuindo para a germinação de árvores de grande porte.
- Veado-campeiro e anta – auxiliam na dispersão de espécies de frutos grandes, fundamentais para a regeneração de veredas.
Esses animais, que caminham livremente entre campos, matas e trilhas, mantêm o Cerrado em constante movimento e renovação.
Ciência em campo: trilhas monitoradas
Projetos de ecologia de trilhas no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás, e na Estação Ecológica de Águas Emendadas, no DF, vêm utilizando armadilhas fotográficas e rastreamento por GPS para entender como as rotas de dispersão estão conectadas à regeneração do bioma.
Os resultados mostram que áreas com alta presença de fauna dispersora têm recuperação vegetal até 40% mais rápida do que locais isolados ou impactados por queimadas intensas.
O papel dos trilheiros e turistas
- Caminhar em grupos pequenos e silenciosos;
- Evitar alimentar ou seguir animais;
- Não remover frutos ou sementes das trilhas;
- Apoiar projetos locais de pesquisa e reflorestamento.
Com consciência e respeito, cada trilheiro se torna parte dessa teia de regeneração.
Trilhas que semeiam o amanhã
O Cerrado é o bioma mais antigo do Brasil e, ao mesmo tempo, um dos mais ameaçados. Entender o papel da fauna na dispersão de sementes é reconhecer o poder das conexões invisíveis — aquelas que nascem dos passos, dos voos e das pegadas.
Equipe Trilhas Planalto

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