O Cerrado é um dos biomas mais ricos do mundo em diversidade vegetal, mas boa parte desse patrimônio vai além da paisagem: está no conhecimento tradicional associado às plantas que curam, aliviam dores e protegem o corpo. Há gerações, comunidades rurais, povos tradicionais e raizeiros utilizam espécies nativas do Cerrado como base para tratamentos naturais, construindo uma relação profunda entre saúde, cultura e natureza.
Entre as plantas mais conhecidas está o barbatimão, amplamente utilizado por suas propriedades cicatrizantes e anti-inflamatórias. Sua casca é tradicionalmente aplicada em chás e infusões, sendo considerada um dos “remédios naturais” mais poderosos do Cerrado. Já a sucupira, especialmente suas sementes, é famosa no combate a dores articulares e inflamações, integrando receitas passadas de geração em geração.
Outra espécie de grande importância é a aroeira, usada tanto para fins medicinais quanto para proteção natural do solo e das nascentes. Suas propriedades antissépticas são valorizadas em tratamentos caseiros, enquanto sua presença na paisagem ajuda a manter o equilíbrio ecológico. O jatobá, além de fornecer frutos nutritivos, tem a casca e a farinha tradicionalmente usadas para fortalecer o organismo e auxiliar problemas respiratórios.
Essas plantas não atuam isoladamente. O uso tradicional da flora do Cerrado está inserido em um sistema de conhecimento que respeita o tempo da natureza, as fases da lua, a forma correta de coleta e o preparo adequado. Esse saber popular, transmitido oralmente, garante não apenas a eficácia dos tratamentos, mas também a preservação das espécies, evitando a exploração predatória.
Hoje, esse patrimônio enfrenta riscos. O avanço do desmatamento, o uso indiscriminado de agrotóxicos e a perda de áreas nativas ameaçam tanto as plantas quanto o conhecimento associado a elas. Ao mesmo tempo, cresce o interesse científico pelas propriedades medicinais do Cerrado, reforçando a necessidade de conservação e uso sustentável. Valorizar essas plantas é reconhecer que a saúde humana e a saúde do bioma caminham juntas — e que proteger o Cerrado é também preservar uma farmácia natural insubstituível.
Equipe Trilhas do Planalto

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