O Cerrado é frequentemente visto como um bioma estático, de paisagens amplas e aparentemente imutáveis. Mas, ao longo do ano, ele está em constante movimento. Com a alternância entre estação seca e chuvosa, a fauna do Cerrado se desloca de forma silenciosa e estratégica, seguindo a disponibilidade de água, alimento e abrigo. Essas migrações — muitas vezes curtas, mas fundamentais — garantem a sobrevivência das espécies e o equilíbrio do ecossistema.
Durante a estação seca, rios menores diminuem ou desaparecem, frutos se tornam escassos e o calor se intensifica. Nesse período, diversos mamíferos, como veados-campeiros, lobos-guarás e antas, ampliam seus territórios em busca de áreas com veredas ativas e matas de galeria, onde ainda há água e sombra. Esses deslocamentos ajudam na dispersão de sementes por grandes áreas, conectando diferentes paisagens do Cerrado e favorecendo a regeneração da vegetação.
As aves protagonizam alguns dos movimentos mais evidentes — embora ainda pouco percebidos. Espécies como araras, periquitos e aves insetívoras ajustam rotas conforme a oferta de frutos, flores e insetos. Na chegada das chuvas, muitas retornam a áreas específicas para reprodução, aproveitando a explosão de alimento e a maior oferta de locais para nidificação. Esse vai e vem sazonal transforma o céu do Cerrado e influencia diretamente a dinâmica das plantas, especialmente aquelas que dependem da polinização e da dispersão de sementes.
Insetos e anfíbios também seguem o ritmo das estações. Com as primeiras chuvas, ocorre um verdadeiro despertar: sapos e rãs emergem para se reproduzir em poças temporárias, enquanto borboletas, abelhas e outros insetos ampliam sua área de atuação. Esses movimentos rápidos e sincronizados garantem a reprodução das espécies e alimentam uma cadeia complexa que sustenta aves, répteis e pequenos mamíferos.
Essas migrações invisíveis revelam um Cerrado vivo, conectado e em constante adaptação. No entanto, estradas, cercas, desmatamento e a fragmentação do habitat interrompem esses fluxos naturais, colocando em risco espécies que dependem da mobilidade para sobreviver. Proteger corredores ecológicos e compreender o ritmo natural do bioma é essencial para manter esse movimento contínuo. Afinal, no Cerrado, viver é saber se mover — e preservar é permitir que esse caminho continue aberto.
Equipe Trilhas do Planalto

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