Formigueiros gigantes: as saúvas que remodelam o Cerrado por baixo da terra

Quem caminha pelo Cerrado costuma prestar atenção nas árvores tortas, nas flores resistentes e nos pássaros coloridos. Mas quase sempre esquece do que está acontecendo embaixo dos nossos pés. Ali, silenciosamente, vivem alguns dos maiores engenheiros do bioma: as saúvas, formigas capazes de construir cidades subterrâneas e transformar a paisagem de formas profundas — às vezes positivas, outras nem tanto.

Arquitetas ocultas do solo

As saúvas (como as espécies Atta laevigata e Atta sexdens) constroem formigueiros que podem atingir 5 a 8 metros de profundidade e ultrapassar 40 câmaras internas, conectadas por túneis que chegam a dezenas de metros de extensão.

Essas estruturas são tão grandes que podem ser vistas em imagens de satélite. Em algumas regiões, pesquisadores já encontraram formigueiros fossilizados com centenas de anos.

O “fungo mágico” das saúvas

Apesar da fama de destruidoras, as saúvas não comem folhas.
Elas cultivam um fungo dentro do formigueiro — uma espécie de “agricultura subterrânea” milenar. As folhas servem de substrato para esse fungo, que é o alimento principal das colônias.

Esse sistema agrícola influencia diretamente:

  • a fertilidade do solo;
  • a decomposição de matéria orgânica;
  • a ciclagem de nutrientes;
  • a redistribuição de minerais nas camadas profundas.

Ou seja: ao cavarem e moverem terra, as saúvas reviram o Cerrado por dentro.

Impactos positivos na paisagem

Apesar de serem vistas como pragas em áreas agrícolas, no Cerrado natural as saúvas têm papéis ecológicos importantes:

  • Aeram o solo, permitindo a infiltração da água da chuva;
  • Criam clareiras naturais, que favorecem espécies pioneiras;
  • Contribuem para a mistura de nutrientes nas camadas profundas;
  • Influenciam a distribuição de plantas e servem de alimento para tatu-canastra, tamanduás e aves.

Por isso, muitos ecólogos consideram as saúvas “engenheiras do ecossistema”.

Mas nem tudo é equilíbrio

Quando o Cerrado é convertido para agricultura ou áreas urbanas, esse equilíbrio se rompe. Sem predadores naturais — como tamanduás, tatus e algumas aves — as populações de saúvas podem crescer além do natural e causar grandes danos a lavouras e áreas replantadas.

É um exemplo claro de como o desequilíbrio ambiental transforma um engenheiro em vilão.

Como identificar um grande formigueiro em uma trilha

Quem explora trilhas no Planalto Central pode observar alguns sinais:

  • montes de terra solta, formando “olheiros” alinhados;
  • fileiras de formigas carregando folhas;
  • solo mais claro e mais fofo que o entorno;
  • vegetação rasteira com clareiras circulares.

Esses formigueiros são incríveis de observar — mas é importante não pisar próximo aos “olheiros”, pois o solo pode ceder.

Por que entender as saúvas importa?

O Cerrado é um bioma subterrâneo tanto quanto superficial.
Suas raízes profundas, seus aquíferos e seus animais escavadores mantêm tudo funcionando. As saúvas são parte essencial desse equilíbrio — e conhecê-las ajuda a compreender a complexidade das trilhas que exploramos.


Equipe Trilhas do Planalto

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