O Cerrado é um bioma que se organiza em torno do tempo certo da natureza, e poucos elementos revelam isso tão bem quanto seus frutos. Ao longo do ano, a frutificação das espécies nativas dita o ritmo da fauna, influencia deslocamentos, períodos reprodutivos e até a regeneração da vegetação. Cada fruto do Cerrado é mais do que alimento: é um elo essencial que conecta plantas, animais e o equilíbrio do ecossistema.
Entre os frutos mais emblemáticos está o pequi, símbolo do Cerrado e base alimentar para diversas espécies. Mamíferos como o lobo-guará, a anta e a cutia consomem seus frutos e ajudam a dispersar sementes por grandes áreas. A polpa nutritiva e o aroma característico atraem também aves e insetos, tornando o pequizeiro um verdadeiro ponto de encontro da vida silvestre durante sua frutificação.
Outro destaque é o baru, cujo fruto abriga uma castanha rica em nutrientes. Quando amadurece, passa a integrar a dieta de aves, roedores e pequenos mamíferos, que ao carregarem e enterram sementes, colaboram para o surgimento de novas árvores. O araticum e a cagaita seguem o mesmo caminho: seus frutos carnosos alimentam a fauna e garantem a continuidade das espécies vegetais, fechando um ciclo natural de troca.
Já o buriti, típico das veredas, cumpre um papel ainda mais amplo. Seus frutos sustentam aves, mamíferos e insetos, enquanto sua presença indica áreas úmidas e nascentes ativas. Em torno dessas palmeiras, forma-se um ambiente fértil que beneficia toda a cadeia ecológica. A frutificação do buriti mantém a vida em regiões onde a água é um recurso precioso, especialmente durante a estação seca.
A relação entre frutos e fauna no Cerrado é um exemplo claro de interdependência. Sem os animais, muitas plantas não se reproduziriam; sem os frutos, inúmeros animais perderiam sua principal fonte de alimento. Preservar as espécies frutíferas do Cerrado é garantir que esse ciclo continue existindo. Em um bioma frequentemente subestimado, seus frutos contam uma história de abundância, resistência e conexão — uma prova de que, no Cerrado, tudo está ligado pela vida que nasce, amadurece e se espalha pelo território.
Equipe Trilhas do Planalto

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