O Cerrado é um bioma de extremos. Entre longos períodos de seca, chuvas concentradas e queimadas naturais ou provocadas, suas plantas desenvolveram estratégias impressionantes para sobreviver — e até prosperar — em condições que desafiam a maior parte das espécies do planeta. Por isso, a flora do Cerrado é frequentemente chamada de “plantas de ferro”: resistentes, resilientes e fundamentais para a manutenção da biodiversidade.
Uma das principais adaptações está no sistema radicular profundo, que pode ultrapassar 10 metros em algumas espécies. Árvores como o ipê, o pequizeiro e a sucupira armazenam água e nutrientes no subsolo, garantindo sobrevivência durante meses de estiagem. Essas raízes funcionam como verdadeiros reservatórios naturais e ajudam a sustentar a vegetação mesmo quando a superfície do solo está ressecada e pobre em nutrientes.
Outra característica marcante é a casca grossa e rugosa de muitas árvores do Cerrado. Essa “armadura natural” protege o tronco e os tecidos vivos contra o fogo, que ocorre de forma recorrente no bioma. Espécies como o barbatimão e o pau-terra têm cascas tão espessas que conseguem resistir a temperaturas elevadas, rebrotando logo após as queimadas. Em muitos casos, o fogo não é apenas um desafio: é parte essencial do ciclo de vida, estimulando a germinação de sementes e renovando o solo.
Além disso, o Cerrado também abriga plantas que surpreendem pela sutileza de suas adaptações, como folhas pequenas, pilosas ou revestidas por uma fina camada de cera. Essas estruturas reduzem a perda de água por evaporação e refletem parte da luz solar, permitindo que a vegetação resista ao calor intenso. As espécies aromáticas e medicinais — como o alecrim-do-campo, a lixeira e o capim-santo — são exemplos de como a flora alia resistência e funcionalidade, produzindo óleos essenciais que também ajudam na defesa contra herbívoros.
A sobrevivência dessas plantas de ferro revela a força do Cerrado e sua extraordinária capacidade de regeneração. No entanto, a expansão agrícola, o desmatamento e queimadas descontroladas ameaçam esse equilíbrio milenar. Compreender as estratégias de resistência da flora é um passo fundamental para valorizar e proteger o bioma. Afinal, cada raiz profunda, cada casca espessa e cada folha adaptada conta a história de um bioma que, apesar de resistente, depende de cuidado constante para continuar vivo
Equipe Trilhas do Planalto .

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