Capim-dourado: a planta que virou ouro nas mãos do povo do Jalapão

Numa região de dunas e rios cristalinos no coração do Tocantins, uma planta delicada de hastes douradas sustenta uma comunidade inteira — e provou que o Cerrado vivo vale muito mais do que o Cerrado derrubado.

Há objetos que carregam uma história maior do que sua aparência sugere. Uma cesta de capim-dourado — leve, dourada, com o brilho suave de metal antigo — pode parecer apenas um artesanato bonito, do tipo que se compra em feiras e leva de lembrança de viagem. Mas se você souber de onde vem, das mãos de quem foi feita e da ciência que garante que continuará existindo, o objeto se transforma. Vira um argumento vivo pela conservação do Cerrado, construído pacientemente, haste por haste, por uma comunidade que nunca precisou de nenhum ministério para entender que proteger o bioma era proteger a si mesma.

O capim-dourado (Syngonanthus nitens) é uma planta delicada que cresce nos campos úmidos do Cerrado — especialmente nos campos limpos úmidos do Jalapão, região de dunas e veredas no estado do Tocantins. Suas hastes eretas, de até 60 centímetros, terminam em pequenas flores brancas e carregam uma característica rara: depois de colhidas e secas, mantêm por anos o brilho dourado que dá nome à planta. O capim-dourado é uma "sempre-viva" — espécie que, após colhida e seca, consegue resistir consideravelmente ao tempo. 

A planta e seu calendário preciso

A produção de escapos do capim-dourado no Jalapão inicia-se entre abril e maio, e a floração ocorre a partir de julho. Esse calendário não é detalhe — é a chave de toda a lógica de sustentabilidade do extrativismo. A coleta só pode ocorrer depois que as hastes estão maduras o suficiente para serem trabalhadas pelo artesanato, mas antes que as sementes se dispersem — garantindo a reprodução da planta para a temporada seguinte. 

Por isso, o governo do Tocantins estabeleceu uma data oficial para o início da coleta: 20 de setembro. Antes dessa data, é proibido colher. A lógica é simples e eficaz: as sementes precisam estar prontas para se dispersar antes que as hastes sejam retiradas. Quem respeita esse calendário garante que haverá capim-dourado no ano seguinte. Quem não respeita compromete não só sua própria coleta futura, mas a de toda a comunidade.

Essa regra — aparentemente simples — representa anos de negociação entre pesquisadores, governo e comunidades tradicionais. E o fato de ela ser amplamente respeitada no Jalapão é um dos sinais mais concretos de que o extrativismo sustentável não é apenas teoria: é prática cotidiana de pessoas que entenderam que seu sustento e o equilíbrio do bioma são a mesma coisa.

O capim-dourado só cresce nos campos limpos úmidos — ambientes frágeis, dependentes da manutenção das veredas e do lençol freático próximo à superfície. Proteger o capim-dourado é, automaticamente, proteger um dos ecossistemas mais sensíveis do Cerrado.

A comunidade Mumbuca e o artesanato que virou identidade

A atividade extrativista de capim-dourado no Parque Estadual do Jalapão é conduzida principalmente pelas comunidades tradicionais de Mumbuca e Prata. A comunidade Mumbuca, no município de Mateiros (TO), é a mais conhecida — e sua história com o capim-dourado é inseparável da história do próprio Jalapão como destino turístico e cultural. 

Os moradores de Mumbuca são descendentes de antigas famílias sertanejas que se fixaram na região há mais de cem anos, quando o Jalapão era praticamente inacessível. Por gerações, eles viveram do que a terra oferecia — agricultura de subsistência, criação de animais, e a coleta de produtos nativos do Cerrado. O artesanato de capim-dourado sempre existiu, mas era produção local, para uso próprio e pequeno comércio regional.

A virada aconteceu nos anos 1990 e 2000, quando o Jalapão começou a se tornar conhecido fora do Tocantins. Fotógrafos, aventureiros e depois turistas descobriram as dunas, as fervedouros e as cachoeiras da região — e junto com elas, o artesanato de capim-dourado. As cestarias, bolsas, colares e enfeites feitos em Mumbuca chegaram a feiras de design em São Paulo, lojas de artesanato no Rio de Janeiro e até vitrines no exterior. O preço subiu, a demanda cresceu, e a comunidade precisou de uma estrutura para gerir tudo isso.

Os resultados das pesquisas apontam que a comunidade Mumbuca não tem como sobreviver fora da área em que vive há mais de cem anos — e que é a autoridade estadual que deve encontrar uma saída institucional e dialogada para o uso sustentável do Parque Estadual do Jalapão. Essa tensão entre conservação estrita e direitos de comunidades tradicionais ainda não está completamente resolvida — mas o que Mumbuca demonstrou ao longo das últimas décadas é que uma comunidade que depende do bioma para sobreviver é, na prática, sua guardiã mais eficaz. 

A técnica que não se improvisa

Fazer artesanato de capim-dourado é uma habilidade que se aprende cedo e se aperfeiçoa por anos. As hastes colhidas são classificadas por tamanho e espessura, atadas em feixes e deixadas para secar ao sol durante dias. Depois, cada haste é trabalhada individualmente — trançada, dobrada, costurada com fios de buriti — para formar os padrões geométricos que caracterizam o artesanato da região.

O resultado é ao mesmo tempo resistente e delicado. Peças bem cuidadas duram décadas. O brilho dourado não é tinta nem verniz: é a cor natural das hastes secas de Syngonanthus nitens, imutável com o tempo. Quem compra um artesanato de capim-dourado do Jalapão está comprando um fragmento do Cerrado vivo — literalmente.

Onde comprar com responsabilidade: Artesanato legítimo de capim-dourado do Jalapão vem de associações cadastradas no Tocantins e tem certificação de origem. Desconfie de peças muito baratas vendidas fora da região — podem ser imitações feitas com outras plantas ou produtos coletados de forma irregular, sem respeito ao calendário de coleta. Comprar da fonte — das associações de Mateiros, de Mumbuca, ou de feiras com procedência comprovada — é a única forma de garantir que seu dinheiro chega à comunidade que cuida do bioma.

O capim-dourado não é apenas uma planta bonita. É a prova de que o Cerrado tem valor econômico real quando está em pé — e de que as comunidades que vivem nele há gerações sabem, melhor do que qualquer planejador externo, como mantê-lo assim.


Equipe Trilhas do Planalto

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