O Cerrado visto de cima: passagem de aves e o birdwatching no Centro-Oeste

Abril e maio são meses de travessia. Aves que vieram de longe partem; outras chegam. Para quem sabe olhar para o céu, o Cerrado oferece um dos espetáculos ornitológicos mais ricos do Brasil.

Há um tipo de prazer que começa antes do sol nascer. É o prazer do observador de aves — o birdwatcher — que acorda na madrugada, toma um café rápido e sai com binóculo e caderno para um campo aberto ou uma beira de mata-galeria. Nenhum aplicativo substitui a sensação de ouvir um canto desconhecido, procurar no mato e descobrir, empoleirado em um galho fino, um pássaro que você nunca tinha visto antes.

No Cerrado, essa sensação é amplificada ao máximo. O bioma abriga cerca de 850 espécies de aves — mais do que muitos países inteiros. Muitas são endêmicas, ou seja, só existem aqui. E em abril e maio, com a estação seca começando e as rotas migratórias em pleno movimento, a riqueza ornitológica do Centro-Oeste atinge um de seus picos anuais.

Quem chega, quem parte

Entender a movimentação de aves no Cerrado em abril exige pensar em escalas continentais. Algumas espécies que passaram o verão úmido no bioma — aproveitando a fartura de insetos e frutos da estação chuvosa — agora partem para outras regiões ou outros países. É o caso de diversas andorinhas e andorinhões que constroem ninhos no Cerrado durante os meses quentes e migram para a Amazônia ou para o Sul do continente conforme o clima muda.

Ao mesmo tempo, o Cerrado recebe visitantes que chegam de outras latitudes. Algumas espécies de maçaricos e batuíras vindas da América do Norte cruzam o Brasil em direção à Patagônia, usando as planícies abertas do bioma como área de descanso e alimentação. Outras espécies chegam do Pantanal e da Amazônia para ocupar as veredas e matas de galeria durante os meses mais secos, onde a concentração de água as favorece.

O Cerrado é o único bioma presente em todas as cinco regiões do Brasil. Para as aves migratórias, isso significa que ele é inevitável — um corredor central que quase toda rota de migração nacional precisa atravessar.

Esse papel de corredor faz do bioma um hotspot ornitológico de importância hemisférica. Em 2025, durante a COP15 em Campo Grande, pesquisadores anunciaram o registro da mariquita-de-connecticut (Geothlypis agilis) em área de Cerrado no Mato Grosso do Sul — uma ave migratória da América do Norte que havia sido registrada no Brasil apenas uma única vez antes, na Amazônia. O Cerrado continua revelando surpresas para quem presta atenção.

As espécies que valem a viagem

Para quem está planejando uma saída de campo neste fim de abril, algumas espécies merecem atenção especial. O pato-mergulhão (Mergus octosetaceus) é uma das aves aquáticas mais ameaçadas do mundo — com menos de 250 indivíduos estimados — e tem nos rios de Goiás e do Tocantins um de seus últimos redutos. A seriema (Cariama cristata), com seu canto alto e inconfundível que ecoa pelos campos abertos, é uma das presenças mais marcantes do Cerrado típico. O papa-moscas-do-campo (Culicivora caudacuta), pequeno e difícil de ver, é um dos mais cobiçados pelos birdwatchers que visitam o bioma.

Nas veredas e matas de galeria, a diversidade de espécies florestais aumenta muito. O joão-de-barro constrói seus fornos de argila ao longo de estradas e cercas. A alma-de-gato (Piaya cayana) desliza sorrateiramente entre os galhos com sua longa cauda vermelha. E nas noites de início de seca, a coruja-buraqueira fica em frente à sua toca no chão, observando o campo com seus olhos amarelos como um vigia de outro mundo.

Birdwatching no Brasil: O Brasil é um dos três países com maior biodiversidade de aves no mundo, com mais de 1.900 espécies catalogadas. Estima-se que existam 42 mil praticantes de birdwatching no país — número que vem crescendo consistentemente. O turismo de observação de aves movimenta uma cadeia econômica significativa, especialmente em destinos como o Pantanal, a Chapada dos Veadeiros e o Jalapão.

Como começar: dicas para o observador iniciante no Cerrado

Você não precisa de equipamento sofisticado para começar. Um binóculo de entrada, um caderno de campo e o aplicativo WikiAves — desenvolvido no Brasil e com um banco de dados impressionante de sons e fotos de aves — já são suficientes para uma primeira saída gratificante. O aplicativo permite identificar espécies por canto, algo fundamental num bioma onde muitas aves ficam escondidas na vegetação densa.

Os melhores horários são sempre o amanhecer e o entardecer, quando as aves estão mais ativas. As bordas de mata — onde o campo aberto encontra a vegetação mais densa — concentram a maior diversidade, pois reúnem espécies de dois ambientes diferentes. Beiras de córregos e veredas, especialmente em abril e maio quando a água começa a se concentrar nesses pontos, são paradas quase obrigatórias.

Para destinos mais estruturados, o Parque Nacional das Emas (GO/MS) é considerado um dos melhores locais do mundo para observação de aves de cerrado aberto. A Chapada dos Veadeiros oferece uma combinação rara de cerrado, matas de galeria e campos rupestres. E o Jalapão, no Tocantins, combina veredas espetaculares com paisagens que parecem de outro planeta.

Olhar para o Cerrado de baixo para cima — pelos fungos e cupins — já foi tema aqui no Trilhas do Planalto. Olhar de cima para baixo, pelo voo das aves, revela outra dimensão do mesmo bioma. E as duas perspectivas, juntas, deixam claro que o Cerrado não é só um lugar. É uma experiência que nunca se esgota.


Equipe Trilhas do Planalto

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