Guardiões do Cerrado: os povos que sempre souberam cuidar do bioma

No Dia do Trabalho, uma homenagem ao trabalho mais antigo e mais essencial do Centro-Oeste — o de quilombolas, geraizeiros, indígenas e quebradeiras de coco que guardaram o Cerrado quando ninguém mais queria.

Existe um tipo de conhecimento que não está em nenhum livro de ecologia, em nenhuma base de dados científica, em nenhum satélite de monitoramento. É o conhecimento de quem nasce dentro de um bioma, cresce aprendendo seus ciclos, seus frutos, seus ventos e suas chuvas, e passa esse saber adiante de geração em geração, sem nada escrever, porque a própria terra é a memória.

No Cerrado, esse conhecimento tem nome e endereço. Chama-se Kalunga, na Chapada dos Veadeiros. Chama-se geraizeiro, no norte de Minas Gerais. Chama-se quebradeira de coco babaçu, no Maranhão e no Tocantins. Chama-se Xavante, Apinajé, Kraô. Ribeirinho, vazanteiro, retireiro do Araguaia. São mais de 80 etnias indígenas e inúmeras comunidades tradicionais que, juntas, habitam o bioma há mais de 12 mil anos — muito antes de qualquer política ambiental, qualquer unidade de conservação, qualquer decreto federal.

Os Kalunga e o Cerrado que guardaram

Os Kalunga são uma comunidade quilombola que vive na região da Chapada dos Veadeiros, no norte de Goiás. Descendentes de escravizados que fugiram das minas de ouro do século XVIII, eles se refugiaram naquelas chapadas remotas e construíram ali, no isolamento, uma cultura própria — profundamente entrelaçada com o Cerrado. Em 1991, o território Kalunga foi reconhecido como Patrimônio Histórico e Cultural Brasileiro, tornando-se um dos maiores territórios quilombolas do país.

O que os Kalunga preservaram não foi só terra. Foi um sistema completo de convivência com o bioma. Eles sabem quais plantas do Cerrado servem para remédio, quais são comestíveis em cada estação, como manejar o fogo para renovar o capim sem destruir a vegetação arbórea. Sabem onde ficam as nascentes, quando o rio está bom para pescar, como identificar uma vereda saudável. Esse conhecimento, acumulado ao longo de séculos, é hoje reconhecido por pesquisadores como uma das mais ricas formas de sabedoria ecológica do bioma.

“Dinheiro e poder nós não temos, mas somos guardiões do Cerrado — então temos que lutar pela preservação. Nosso valor é vida, e isso não tem preço. Vida depende de água pra beber, da floresta viva, dos animais vivos.”

— Maria do Socorro Lima, quebradeira de coco babaçu e presidente da Rede Cerrado

Os geraizeiros e o Cerrado que chamam de Gerais

No norte e noroeste de Minas Gerais, onde o Cerrado é chamado de “gerais”, vivem os geraizeiros — camponeses que desenvolveram ao longo de séculos uma forma de agricultura diversificada e integrada ao bioma. Eles plantam milho, mandioca, andu e frutas em roças pequenas, combinadas com o extrativismo de produtos nativos: pequi, buriti, murici, baru. Criam animais em áreas de uso comum, chamadas “fundos de pasto”, onde a vegetação nativa serve de pastagem sem ser destruída.

Algumas famílias geraizeiras estão na região há mais de sete gerações. Uma das principais ameaças históricas foi o avanço da monocultura de eucalipto a partir dos anos 1970, que expropriou terras, contaminou rios e destruiu veredas. Mas o movimento geraizeiro resistiu — e segue resistindo. Seu território conservado é hoje um dos corredores ecológicos mais importantes do Cerrado mineiro, conectando áreas protegidas e mantendo nascentes que abastecem cidades inteiras.

As quebradeiras de coco e a economia do Cerrado vivo

No Maranhão, no Piauí e no Tocantins, existe uma economia que existe há séculos e que pouquíssimas pessoas do Sul e Sudeste do Brasil conhecem: a economia do babaçu. As quebradeiras de coco babaçu são mulheres que vivem da coleta e processamento dos cocos da palmeira babaçu (Attalea speciosa), nativa do Cerrado e da transição com a Amazônia. Do coco elas extraem azeite, farinha, carvão e outros produtos que sustentam suas famílias e comunidades.

O trabalho das quebradeiras é, ao mesmo tempo, extrativismo, conservação e resistência. Ao manter os babaçuais em pé, elas garantem a sobrevivência de um ecossistema inteiro — e enfrentam, permanentemente, o avanço de fazendeiros e empresas que querem derrubar as palmeiras para plantar soja ou criar gado. A luta pelo “babaçu livre” — o direito de acessar as palmeiras mesmo em propriedades privadas — é uma das histórias mais bonitas e menos contadas do ambientalismo brasileiro.

Sociobiodiversidade do Cerrado: O Cerrado abriga mais de 80 etnias indígenas e centenas de comunidades tradicionais. Esses povos ocupam o bioma há mais de 12 mil anos e seus territórios conservados formam corredores ecológicos fundamentais entre áreas protegidas. Hoje, apenas 8% do Cerrado está oficialmente protegido — um contraste gritante com a importância do bioma.

O que o feriado tem a ver com o Cerrado

No Dia do Trabalho, celebramos o direito à dignidade de quem labora. É um dia para pensar em quem constrói, quem produz, quem mantém. E quando olhamos para o Cerrado, percebemos que o maior trabalho de conservação do bioma não foi feito por governos nem por empresas: foi feito por esses povos, às margens da história oficial, sem reconhecimento, muitas vezes contra a vontade do Estado.

Falar de Cerrado sem falar dos Kalunga, dos geraizeiros, das quebradeiras, dos Xavantes e dos Apinajés é contar uma história incompleta — e, pior, injusta. São eles que sabem o nome de cada planta medicinal, o momento certo de colher o buriti sem prejudicar a vereda, como o fogo pode ser aliado e não inimigo quando usado com sabedoria ancestral. São eles os pesquisadores mais antigos do bioma — e os menos ouvidos.

Neste 1º de maio, o Trilhas do Planalto homenageia esses trabalhadores invisíveis do Cerrado. Aqueles que, geração após geração, se levantaram antes do sol para cuidar de um bioma que o mundo só começou a valorizar quando já havia destruído metade dele. O Cerrado que ainda existe, em grande parte, é obra deles.


Equipe Trilhas do Planalto

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