No Dia da Terra, uma homenagem aos protagonistas sem rosto do bioma — os fungos, os cupins, as abelhas sem ferrão e as alianças secretas que, juntas, fazem o Cerrado existir.
Quando as pessoas pensam no Cerrado, a imagem que vem à mente é sempre a dos grandes: o lobo-guará correndo ao entardecer com sua pelagem laranja, a ema caminhando pelo campo aberto, o ipê explodindo em flores amarelas no meio da seca. Essas imagens são verdadeiras e bonitas. Mas contam apenas metade da história — e talvez nem isso.
Debaixo de cada árvore retorcida, dentro de cada grão de solo vermelho, há um mundo que a maioria de nós jamais viu e dificilmente verá. É nesse mundo que o Cerrado, de fato, funciona. É ali que a vida se negocia em escala microscópica, em alianças formadas ao longo de milhões de anos, tão precisas que a perda de um único elo pode desencadear colapsos em cadeia que só percebemos quando é tarde demais.
Os fungos que alimentam as raízes
As árvores do Cerrado crescem num solo pobre, ácido, com baixa fertilidade natural. Se dependessem apenas dos nutrientes disponíveis na camada superficial, não sobreviveriam à seca. O segredo está nas micorrizas — fungos que formam associações íntimas com as raízes das plantas, estendendo filamentos invisíveis pelo solo como uma rede de internet orgânica. Esses filamentos, chamados hifas, exploram volumes de solo muito maiores do que qualquer raiz conseguiria alcançar, captando fósforo, nitrogênio e água em troca de açúcares que a planta produz pela fotossíntese. É um contrato antigo e justo: a planta alimenta o fungo com energia; o fungo alimenta a planta com minerais.
Estimativas científicas sugerem que mais de 90% das espécies vegetais do Cerrado dependem dessas associações micorrízicas para prosperar. Quando um trecho é desmatado e o solo é revolvido pelo arado, essa rede é destruída — e por isso a revegetação de áreas degradadas do bioma é tão difícil. Replantando a árvore sem restaurar o fungo, é como ligar um computador sem sistema operacional.
Sob cada hectare de Cerrado intacto existe uma rede de filamentos fúngicos cuja extensão total pode superar quilômetros. É a internet mais antiga e eficiente que existe.
Os cupins que constroem o solo
Os cupins têm uma reputação injusta. No imaginário popular, são associados à destruição — de móveis, madeiras, estruturas. No Cerrado, no entanto, são engenheiros fundamentais do ecossistema. Os termiteiros que pontilham as chapadas são muito mais do que moradias de insetos: são fábricas de solo.
Ao construírem suas câmaras, os cupins transportam material de camadas profundas para a superfície, aerando o solo e melhorando sua permeabilidade à água. O material orgânico que acumulam dentro dos ninhos — restos vegetais que eles digerem com a ajuda de microrganismos simbiontes — libera nutrientes de forma lenta e contínua, como um adubo de liberação programada que nenhuma indústria química consegue replicar com a mesma precisão.
E há outro papel: seus ninhos abandonados, com o tempo, viram habitat. Tatus-bola encontram abrigo neles. Alguns répteis os usam para desovar, aproveitando o calor constante gerado pela decomposição interna. A coruja-buraqueira instala ninhos no solo próximo a termiteiros, beneficiando-se da terra mais fofa. Um termiteiro vazio no Cerrado nunca fica realmente vazio por muito tempo.
As abelhas sem ferrão e seus aliados fúngicos
O Brasil tem mais de 300 espécies de abelhas sem ferrão, e boa parte delas vive no Cerrado. Mandaçaia, jataí, mandaguari, tiúba — cada espécie tem uma especialidade floral, uma preferência de ninho, um raio de coleta diferente. Juntas, são responsáveis por grande parte da polinização das plantas nativas do bioma, incluindo espécies de frutos que alimentam aves, mamíferos e comunidades humanas.
Recentemente, pesquisadores da Embrapa descobriram algo que mudou a forma como entendemos essas abelhas: algumas espécies, como a mandaguari (Scaptotrigona depilis), cultivam fungos dentro de seus ninhos para alimentar as larvas. O fungo cresce sobre o alimento depositado pelas operárias e é consumido pelas larvas em seus primeiros dias de vida. Sem esse fungo, as larvas simplesmente não sobrevivem. É a primeira simbiose documentada entre uma abelha social e um fungo cultivado — e revela que as abelhas nativas brasileiras são, ao mesmo tempo, apicultoras e fazendeiras de fungos.
Pesquisa recente (Embrapa, 2026): Um estudo demonstrou que fungicidas químicos amplamente usados na agricultura eliminam completamente os microrganismos simbiontes essenciais ao desenvolvimento das larvas de abelhas sem ferrão — mesmo em doses consideradas “seguras”. A pesquisa reforça um alerta: os testes de toxicidade exigidos pela legislação são feitos apenas com abelhas exóticas, deixando as espécies nativas brasileiras em um ponto cego regulatório perigoso.
O que significa “ver” o Cerrado de verdade
No Dia da Terra, é tentador falar apenas do que é belo e grandioso no bioma. E há muito disso. Mas a verdade mais radical sobre o Cerrado — e sobre a vida em geral — é que os processos que sustentam tudo acontecem fora do nosso campo de visão habitual. Acontecem no escuro das raízes, na umidade dos ninhos, nas relações silenciosas entre organismos que nunca terão nome popular.
Preservar o Cerrado não é apenas proteger o lobo-guará ou o ipê-do-cerrado, por mais que isso também seja urgente. É proteger o chão debaixo deles. É garantir que os fungos possam habitar as raízes, que os cupins possam trabalhar o solo, que as abelhas possam criar suas larvas em ninhos intactos. É entender que um bioma não é uma coleção de espécies — é uma teia de relações, e a teia é tão forte quanto o seu elo mais fraco.
Neste 22 de abril, que tal olhar para o Cerrado de baixo para cima, do invisível para o visível? O que você não vê é o que, silenciosamente, faz tudo existir.
Equipe Trilhas do Planalto
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