O Cerrado tem mais plantas que toda a Europa: o que os números da biodiversidade nos dizem

No Dia Internacional da Biodiversidade, um convite para encarar os números do bioma que vivemos. Eles surpreendem, assustam e, se você deixar, mudam a forma como você olha para a paisagem que te cerca.

Existe uma frase que o professor Geraldo Alves Damasceno Junior, da UFMS, costuma usar em aulas e palestras sobre o Cerrado, e que tem o efeito de um balde de água fria nas pessoas que acham que já sabem o suficiente sobre o bioma: "O Cerrado não é mais importante por ser uma transição entre outros biomas. Ele é importante por si só. É a savana com maior biodiversidade do mundo. Nenhuma savana na África ou na Austrália se compara."

Só de plantas, o Cerrado tem cerca de 12 mil espécies catalogadas. A Europa inteira — todos os seus países juntos, da Noruega à Grécia, de Portugal à Finlândia — tem aproximadamente 12.500 espécies de plantas vasculares. Um bioma brasileiro que ocupa 24% do território nacional tem quase a mesma riqueza vegetal de um continente inteiro. E ainda estamos catalogando. 

Neste 22 de maio, Dia Internacional da Biodiversidade, o Trilhas do Planalto faz o que mais importa: coloca os números na mesa. Porque entender o que está em jogo começa por entender a magnitude do que existe.

A savana mais rica do mundo — e a mais ameaçada

O título de "savana mais biodiversa do planeta" não é retórica de conservacionista. O Cerrado brasileiro é reconhecido como a savana mais rica do mundo, abrigando 11.627 espécies de plantas nativas já catalogadas, com grande diversidade de habitats que determinam uma notável alternância de espécies entre diferentes fitofisionomias. Para efeito de comparação, as savanas africanas do Serengeti e do Kruger — famosas no mundo inteiro por sua megafauna — têm uma fração dessa diversidade vegetal. 

Estima-se que nada menos do que 320 mil espécies ocorram no Cerrado — valor que representa cerca de 30% de tudo o que existe no Brasil. A biodiversidade do Cerrado é elevada, mas geralmente menosprezada. 

Mas o que esses números concretos significam em termos práticos? Significa que o Cerrado tem 837 espécies de aves — mais do que toda a América do Norte. Tem 1.200 espécies de peixes, das quais cerca de 200 são endêmicas. Tem 199 espécies de mamíferos, 180 de répteis e 150 de anfíbios. Tem mais de 10 mil espécies de mariposas e um número de abelhas nativas que pode ser o dobro do encontrado na Amazônia. E tem 4.800 espécies de plantas e vertebrados que não existem em nenhum outro lugar do planeta.

O que é um hotspot — e por que o Cerrado é um

O termo hotspot de biodiversidade foi criado pelo ecólogo britânico Norman Myers nos anos 1980 para identificar regiões do planeta que concentram biodiversidade excepcionalmente alta e endemismo elevado, mas que estão sob ameaça grave de destruição. Para ser classificado como hotspot, uma região precisa ter ao menos 1.500 espécies de plantas vasculares endêmicas e ter perdido mais de 70% de sua vegetação original.

O Cerrado atende os dois critérios com folga. O resultado desse processo é que hoje o bioma é considerado um hotspot de biodiversidade, onde há pelo menos 1.500 espécies vegetais endêmicas distribuídas em menos de 30% de vegetação original. Há hoje apenas 36 hotspots reconhecidos no mundo. O Cerrado é um deles. A Mata Atlântica é outro. O Brasil tem dois dos 36 hotspots de biodiversidade do planeta — e ambos estão entre os mais ameaçados. 

"O Cerrado é o bioma mais azarado do planeta. É super rico, a savana com a maior biodiversidade arbórea do mundo, contém uma série de espécies endêmicas, mas está no mesmo país que a Mata Atlântica e a Amazônia. Se o Cerrado estivesse em qualquer outro país, seria megavalorizado." — Nurit Bensusan, coordenadora de biodiversidade do Instituto Socioambiental

O endemismo: o que se perde para sempre

Endemismo é a palavra técnica para algo muito simples e muito assustador: uma espécie endêmica só existe em um lugar. Se esse lugar for destruído, a espécie some do universo para sempre. Não migra, não se adapta a outro bioma, não reaparece em outro continente. Desaparece.

O Cerrado abriga mais de 4.800 espécies de plantas e vertebrados que não existem em nenhum outro lugar do planeta. Cada vez que um hectare de Cerrado nativo é convertido em soja ou pastagem, a probabilidade de que alguma dessas espécies endêmicas perca seu último habitat aumenta. Em muitos casos — especialmente entre insetos, fungos e plantas de distribuição restrita às chapadas — já perdemos espécies antes mesmo de as catalogar. Elas se foram sem que soubéssemos que existiam. 

Mais de um terço das plantas do Cerrado só existem nesse bioma. Isso significa que a destruição do Cerrado é, em proporção, muito mais cara em termos de perda irreversível do que a destruição de qualquer ambiente com menor endemismo. Um hectare de Cerrado destruído leva consigo uma combinação de espécies que não existe em nenhum outro ponto do globo. 

Os números que deveriam mudar tudo — mas ainda não mudaram

Com toda essa riqueza documentada, o Cerrado recebe uma proteção que envergonha. Apenas 8% do bioma está oficialmente protegido em unidades de conservação — contra 28% da Amazônia. O Código Florestal brasileiro exige que proprietários rurais na Amazônia preservem 80% de suas terras como reserva legal; no Cerrado, a exigência cai para apenas 20%. O bioma mais biodiverso do mundo tem menos da metade da proteção legal da floresta ao norte.

O resultado é previsível: o Cerrado perdeu quase metade de sua vegetação nativa em cinquenta anos. As regiões de maior devastação — Matopiba, os chapadões do Mato Grosso, o oeste da Bahia — são exatamente as áreas de maior produtividade agrícola. E enquanto a soja, o milho e o gado avançam, espécies que nunca foram descritas pela ciência deixam de existir.

O que você pode fazer hoje: Conhecer o Cerrado — de verdade, com seus números, sua ecologia, suas comunidades tradicionais — já é um ato político. Compartilhar esse conhecimento é amplificar o alcance da conservação. Consumir produtos do bioma com origem sustentável — pequi, baru, buriti, capim-dourado, mel de abelhas nativas — é traduzir biodiversidade em economia. E cobrar, como cidadão, que 8% de proteção não é suficiente para a savana mais rica do mundo.

Neste Dia Internacional da Biodiversidade, que o Cerrado ocupe o espaço que merece — não apenas no coração de quem já o conhece, mas no debate nacional sobre o futuro do Brasil. Porque o futuro do Cerrado é o futuro da água, do clima e da vida em metade desse país.


Equipe Trilhas do Planalto

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