Suçuarana: a onça-parda que caça do Cerrado à Patagônia — e que ninguém espera encontrar no Planalto Central

É o segundo maior felino das Américas, tem mais de 40 nomes populares em diferentes idiomas, caça de forma solitária e silenciosa em pelo menos 28 países — e está bem aqui no Cerrado, onde a maioria das pessoas nunca pensaria em procurá-la.

Há uma câmera trap instalada no Parque Nacional das Emas desde 2022 que capturou, até hoje, registros de lobo-guará, tamanduá-bandeira, ema, veado-campeiro e onça-pintada melanística. Mas o registro que mais surpreendeu os pesquisadores não foi nenhum desses — foi uma imagem de agosto de 2024, às 2h37 da manhã: uma silhueta bege-dourada, de corpo alongado e cabeça pequena, cruzando um campo aberto a passos deliberados. Uma suçuarana. Exatamente onde ninguém estava procurando.

A suçuarana (Puma concolor), também conhecida como onça-parda, puma, leão-da-montanha ou cougar, é o segundo maior felino nativo das Américas, ficando atrás apenas da onça-pintada, e o que tem a maior escala de distribuição de qualquer outro mamífero selvagem no hemisfério ocidental. Do Canadá ao sul da Argentina, passando por todos os biomas brasileiros, a suçuarana é o felino mais adaptável do continente — e essa adaptabilidade a torna simultaneamente ubíqua e invisível.

O corpo feito para qualquer lugar

As principais características dos pumas são: corpo alongado, cabeça pequena, orelhas pequenas, curtas e arredondadas, pescoço e cauda longa, comprimento em média de 1,55 metro sem a cauda, e 0,70 metros do ombro ao chão, pesam em torno de 70 a 85 kg.

Comparada à onça-pintada — que tem manchas características, corpo robusto e caça por força bruta —, a suçuarana parece quase discreta. Sua pelagem é uniforme, variando do bege-amarelado ao marrom-acinzentado, sem manchas ou listras. Sua cabeça é relativamente pequena para o tamanho do corpo, com orelhas arredondadas que dão ao rosto uma expressão quase doméstica. É um animal que não impõe presença — e essa ausência de ostentação é exatamente o que a torna tão eficiente como predadora.

O puma é um felino de grande porte, podendo medir até 2,4 metros de comprimento incluindo a cauda e pesar entre 30 e 100 kg, dependendo da região e da disponibilidade de alimento. Essa variação de tamanho ao longo de sua distribuição é uma das maiores entre qualquer espécie de mamífero — suçuaranas do sul da Patagônia são quase o dobro do tamanho das suçuaranas do Cerrado, refletindo a disponibilidade de presas maiores e as demandas termorregulатórias de climas mais frios.

Como ela caça no Cerrado

A onça-parda é um animal solitário e apresenta hábito de vida noturno. Porém, embora mais raramente, durante o dia também costuma caçar. O habitat desta espécie animal no Brasil é formado principalmente por cerrado, caatinga e pantanal.

No Cerrado, a suçuarana é uma caçadora generalista — adaptação que explica sua presença em um bioma tão diferente de florestas tropicais fechadas. Ela caça em campo aberto, em bordas de mata, em matas de galeria e em qualquer combinação desses ambientes que seu território amplo contiver. Este felino é conhecido por ser solitário e territorialista, marcando o seu território com urina e arranhões em árvores. Além disso, este felino é conhecido por ser solitário e possui grande habilidade para subir em árvores. Frequentemente usam árvores para explorar ou escapar de ameaças.

Suas presas no Cerrado incluem principalmente veados — o veado-campeiro e o veado-mateiro são presas prioritárias quando disponíveis —, além de capivaras, catetos, queixadas jovens, cutias e, em situações de escassez, aves de grande porte como a ema. Diferentemente da onça-pintada, que mata pela força do mordida no crânio, a suçuarana usa a sufocação — mordida na garganta mantida até a morte da presa. É uma técnica que exige mais tempo mas menos força bruta, adequada a um predador que frequentemente caça presas maiores do que si mesmo.

A suçuarana não compete com a onça-pintada — ela a complementa. Onde a onça-pintada existe, a suçuarana frequentemente ocupa ambientes mais abertos e caça presas menores. Onde a onça-pintada desapareceu, a suçuarana muitas vezes expande sua dieta para ocupar o nicho vago — o que pode criar conflitos com a pecuária que, ironicamente, contribuiu para eliminar a onça-pintada em primeiro lugar.

A suçuarana que ninguém vê

Uma das características mais marcantes da suçuarana no Cerrado é sua invisibilidade prática. Enquanto a onça-pintada é um ímã para câmeras trap e tem populações relativamente bem mapeadas, a suçuarana se esquiva da detecção com uma eficiência que desafia os pesquisadores. O tamanho populacional efetivo foi calculado em cerca de 4.000 indivíduos no Brasil, e em três gerações — ou 21 anos — estima-se que poderá ocorrer um declínio de mais de 10% da subpopulação nacional.

Quatro mil indivíduos no Brasil inteiro. Para um animal com a distribuição mais ampla de qualquer mamífero selvagem do hemisfério ocidental, é um número que revela não abundância, mas raridade relativa — e vulnerabilidade crescente.

As principais ameaças atuais para a espécie são: a supressão e fragmentação de habitat devido à expansão agropecuária e à mineração, além da exploração de madeira para carvão. A eliminação de indivíduos por caça, retaliação por predação de animais domésticos, queimadas principalmente em canaviais, e atropelamentos também contribuem significativamente para a redução da população em diversas áreas.

A retaliação que não deveria acontecer

O conflito com a pecuária é a ameaça mais imediata e mais evitável que a suçuarana enfrenta no Cerrado. Quando um predador mata uma cabeça de gado — o que acontece com mais frequência quando suas presas naturais foram eliminadas pelo próprio desmatamento que criou as pastagens —, a resposta do produtor rural é frequentemente matar o predador. É uma reação compreensível do ponto de vista econômico — e catastrófica do ponto de vista ecológico.

Medidas de conservação incluem a criação de corredores ecológicos, campanhas de educação ambiental e incentivos para o uso de cercas protetoras e manejo adequado do gado, reduzindo os conflitos com produtores rurais. Programas como o do Instituto Pró-Carnívoros trabalham exatamente nessa interface — ajudando produtores rurais a proteger seu gado com cercas mais eficientes e compensando economicamente perdas comprovadas por predação, em troca de não perseguição aos felinos.

Em agosto, com o campo aberto e as presas concentradas em torno dos últimos recursos hídricos disponíveis antes das chuvas, a suçuarana está em seu período de maior atividade de caça no Cerrado. Ela está lá — discretíssima, invisível para a maioria, essencial para o equilíbrio de um bioma que precisa de seus predadores de topo tanto quanto precisa de suas plantas e de seus rios.


Equipe Trilhas do Planalto

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