O murici: a frutinha dourada do Cerrado que sustenta abelhas, aves e comunidades inteiras

Pequeno, amarelo, azedo na medida certa e com um aroma que quem conhece nunca esquece — o murici é um dos frutos mais emblemáticos do Cerrado. E agosto marca o final de sua longa temporada, quando a natureza cobra o que prometeu durante meses.

Existe um cheiro que nenhum laboratório de fragrâncias conseguiu reproduzir adequadamente: o do murici maduro caído no chão num campo de Cerrado em agosto. É ácido e adocicado ao mesmo tempo, com uma nota terrosa que vem do contato com a terra úmida, e uma persistência que impregna as mãos de quem pega o fruto e demora horas para ir embora. Quem cresceu no interior de Goiás, do Tocantins ou do norte de Minas Gerais reconhece esse cheiro imediatamente — e ele puxa, inevitavelmente, uma memória de infância, de sítio, de fim de tarde com o sol alaranjado do Planalto Central.

O murici pertence ao gênero Byrsonima, da família Malpighiaceae — a mesma da acerola. Há quase 100 espécies de murici no Brasil, sendo que metade delas ocorre no bioma Cerrado. A forma de vida varia entre árvores, arbustos ou subarbustos. Algumas espécies comuns de encontrarmos no Cerrado são, por exemplo, Byrsonima basiloba, Byrsonima coccolobifolia, Byrsonima intermedia, Byrsonima umbellata e Byrsonima verbascifolia. A maioria dos muricis apresenta flores amarelas, mas também há diversas espécies com flores brancas ou rosadas.

A planta que desconhece o princípio da escassez

Um dos aspectos mais notáveis do murici como planta do Cerrado é sua capacidade de florescer e frutificar ao longo de períodos extraordinariamente longos — ao contrário da maioria das plantas do bioma, que tem janelas fenológicas estreitas e bem definidas. A frutificação ocorre na estação seca. Isso significa que o murici oferece frutos exatamente quando a maioria das outras fontes de alimento está escassa — tornando-o um recurso de imenso valor estratégico para a fauna do Cerrado.

A floração varia de acordo com o ciclo das chuvas. A abertura das flores geralmente acontece no início da manhã. Essa floração matutina é uma estratégia de sincronização com os polinizadores mais eficientes — as abelhas nativas, que saem dos ninhos com as primeiras luzes do dia e atingem sua máxima atividade nas horas mais frescas da manhã. As flores de murici oferecem óleo floral — não néctar, como a maioria das flores —, um recurso energético denso que atrai especialmente abelhas da família Centridini, especializadas em coletar esse tipo de recompensa e que são as polinizadoras mais eficientes da espécie.

O que o murici oferece à fauna

Os frutos são consumidos por diversas espécies de aves, mamíferos como macacos e raposas, e outros animais, sendo uma importante fonte de alimento durante a estação de frutificação.

Em agosto, quando o murici está nos últimos dias de sua temporada de frutificação, há uma corrida na fauna do Cerrado para aproveitar os frutos que restam. Sabiás e outros tordídeos disputam os cachos ainda nas extremidades dos galhos. Quatis sobem pelos ramos finos com uma agilidade impressionante para alcançar os frutos antes que caiam. E no chão, sob as plantas, uma colônia inteira de formigas frequentemente trabalha para carregar os frutos caídos para o interior do formigueiro — dispersando as sementes no processo.

Da sua semente pode ser extraído o óleo, usado tanto na culinária quanto na indústria de cosméticos. O fruto é rico em carotenoides e possui alta atividade antioxidante. Já o Byrsonima crassifolia possui grande quantidade de aminoácidos, fornecendo ainda fibras, ferro e vitamina C.

Para as abelhas nativas sem ferrão — que estudamos em nossa edição sobre meliponicultura —, o murici tem uma importância que vai além do mel. O óleo floral que coletam durante a floração é misturado ao pólen para alimentar as larvas — um recurso que em algumas espécies de Meliponini é insubstituível para o desenvolvimento saudável dos filhotes. Áreas com populações robustas de murici tendem a ter colônias de abelhas sem ferrão mais saudáveis e produtivas — uma relação que os meliponicultores experientes do Centro-Oeste conhecem empiricamente e que a ciência tem confirmado progressivamente.

O murici não é apenas um fruto do Cerrado. É uma estrutura de suporte — uma âncora alimentar que sustenta abelhas durante a seca, alimenta aves que dispersam sementes de outras plantas, e oferece às comunidades humanas um recurso que a terra produz sem irrigação, sem adubo e sem agrotóxico. É exatamente o tipo de planta que o Cerrado precisa que mais pessoas conheçam.

A farmácia que a casca guarda

Os muricis apresentam também usos medicinais. A casca do tronco é utilizada na medicina popular como febrífugo, antidiarreico e adstringente. A casca contém de 15 a 20% de tanino, sendo adstringente e podendo ser utilizada na indústria de curtume. Esse teor elevado de taninos — semelhante ao que discutimos no barbatimão em edição anterior — é responsável pelas propriedades medicinais documentadas e pelo uso histórico na indústria de curtimento de couro.

Os frutos, quando ingeridos com açúcar, fornecem um laxante brando, além de serem utilizados para combater tosse e bronquite. Suas folhas são usadas em diversos preparados cicatrizantes, anti-inflamatórios e antioxidantes.

O murici na mesa — e o que ainda falta

No Cerrado e nas regiões semiáridas, o murici apresenta um enorme potencial produtivo e econômico devido às suas propriedades nutricionais e possibilidades gastronômicas.

O consumo de murici in natura — aquele fruto azedo que se come direto do pé, levemente quente ao sol — é um prazer praticamente restrito a quem cresceu próximo ao Cerrado. Para a maioria dos brasileiros que vivem fora do bioma, o murici chega pela gastronomia: em sorvetes com sabor inconfundível, em geleias que equilibram o azedo e o doce de forma que nenhuma fruta exótica consegue, em licores e cachaças aromatizadas que o interior goiano e tocantinense produz há gerações, e cada vez mais em pratos de alta gastronomia que descobriram no murici — e nos outros frutos do Cerrado — uma identidade culinária genuinamente brasileira que a cozinha do litoral demorou décadas para reconhecer.

O consumo de seus frutos pode ocorrer na forma de sucos, sorvetes, pratos doces no geral, assim como salgados como em sopas ou com carnes, assim como secos. Também pode ser usado como corante, cachaças e licores. Os frutos de murici-passa possuem alto teor de fibras.

Agosto é o mês de despedida do murici até a próxima temporada. Os últimos frutos que caem sob as plantas agora serão carregados pelas formigas, comidos pelos tatus ou germinados nos próximos meses com as primeiras chuvas. A planta já está preparando, em silêncio, os botões florais que abrirão no próximo ciclo. E quem souber onde procurar pode aproveitar esses últimos dias da temporada — colhendo com respeito, consumindo com prazer, e lembrando que aquele sabor ácido e único é um dos produtos mais genuínos que o Cerrado oferece a quem aprendeu a reconhecê-lo.


Equipe Trilhas do Planalto

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