Formigas do Cerrado: as construtoras invisíveis que sustentam o bioma por baixo da terra

Elas não aparecem nas fotos de divulgação do Cerrado, não têm apelo turístico, não emocionam ninguém nas redes sociais. Mas sem as formigas, o bioma que conhecemos simplesmente não existiria — e o solo que pisamos seria outro.

Existe uma estatística que costuma surpreender até os biólogos mais experientes: estima-se que as formigas e os cupins juntos compõem cerca de um terço de toda a biomassa animal das florestas tropicais da América do Sul. Um terço. Isso significa que, se você pegasse uma balança e pesasse todos os animais do Cerrado, um de cada três gramas seria formiga ou cupim. Número mais impressionante ainda quando se considera que uma formiga operária pesa em média entre 1 e 5 miligramas.

Neste final de maio, com o solo do Cerrado secando e endurecendo progressivamente, a atividade das formigas se intensifica de uma forma que você pode ver sem precisar de nenhum equipamento especial. As trilhas das saúvas ficam mais movimentadas ao entardecer, os termiteiros e sauveiros aparecem com relevo mais nítido no campo ressecado, e o chão — se você parar e olhar de perto — revela-se uma superfície viva, perfurada, trabalhada, construída por bilhões de organismos que nunca param.

A fábrica subterrânea da saúva

A saúva — nome popular para as formigas do gênero Atta, nativa do Cerrado — é provavelmente o inseto mais conhecido do Brasil e, ao mesmo tempo, um dos menos compreendidos em sua importância ecológica. A maioria das pessoas a conhece como praga — a formiga que destrói a horta, devasta a lavoura, que os antigos combatiam com fogo e veneno. Essa visão não é completamente errada, mas é incompleta ao ponto de ser distorcida.

As saúvas produzem o próprio alimento, constroem metrópoles embaixo da terra e contribuem para a saúde do solo. Seu principal trabalho é cortar folhas para preparar um banquete exclusivo: o fungo Leucoagaricus gongylophorus. Como a receita da vovó, o fungo é passado de geração em geração há milhões de anos e é cultivado pelas saúvas dentro do ninho — os dois possuem uma relação de simbiose tão profunda que um não vive sem o outro. Esse fungo cultivado — essa "roça" subterrânea que as saúvas mantêm com precisão de jardineiras — é apenas o começo de uma cadeia de serviços ecológicos que a colônia presta ao bioma. As formigas têm papel fundamental na aeração e drenagem do solo — na maioria dos ecossistemas, as formigas têm um papel maior na aeração e ciclagem de nutrientes do que as minhocas. Cada galeria escavada é um canal de infiltração de água, um corredor de ar, uma rota de migração para microrganismos do solo. Um único formigueiro de saúva pode ter mais de 8 metros de profundidade e centenas de câmaras interconectadas. É uma cidade subterrânea cuja engenharia nenhuma construtora humana replicaria na mesma escala, com a mesma eficiência, pelo mesmo custo: zero. 

O que sobra quando a saúva passa

Há um equívoco popular persistente sobre o trabalho das saúvas: que elas destroem as plantas que cortam. De fato, uma colônia grande pode desfolhar uma árvore inteira em uma noite. Mas no Cerrado nativo — onde as plantas coevoluíram com as formigas por milhões de anos —, o corte seletivo de folhas tem efeitos que vão muito além da destruição aparente.

Ao realizar a decomposição das folhas dentro do ninho e liberar nutrientes no processo, as saúvas contribuem para o ciclo de nutrientes do solo. Além disso, ajudam a controlar a vegetação, evitando que algumas plantas cresçam de forma excessiva e perturbem o equilíbrio ecológico. O trabalho promove a aerificação do solo, facilitando a penetração de água e nutrientes. Há ainda outro papel menos conhecido: em alguns ecossistemas, as formigas são responsáveis pela remoção de até 90% dos cadáveres de pequenos animais, além de terem um papel fundamental na remoção de matéria vegetal morta, permitindo uma ciclagem mais dinâmica dos nutrientes no meio ambiente. Cada animal morto no campo que as formigas encontram antes que apodreça é nutriente que retorna ao solo de forma acelerada e controlada. São as agentes funerárias e recicladoras do Cerrado.

A dispersão de sementes que ninguém vê

As formigas do Cerrado têm uma variedade de comportamentos e interações ecológicas importantes: dispersão de sementes por mirmecocoria, controle de populações de outros insetos, decomposição de matéria orgânica e aeração do solo. A mirmecocoria — dispersão de sementes por formigas — é um dos fenômenos ecológicos mais fascinantes e menos visíveis do bioma. Muitas plantas do Cerrado produzem sementes com uma estrutura nutritiva chamada elaiossomo, uma espécie de "recompensa" gordurosa e proteica que as formigas removem e levam para o ninho. A semente em si, que não tem valor nutritivo para a formiga, é descartada — geralmente perto do ninho, num solo fértil, revolvido e úmido. Plantada, sem que ninguém tenha planejado. 

Algumas pesquisas realizadas em cerrados de Minas Gerais e Goiás identificaram dezenas de espécies de plantas cujas sementes são dispersadas exclusivamente por formigas. Se as formigas desaparecem de uma área — por uso de agrotóxicos, por incêndio intenso, por compactação do solo —, essas plantas perdem seu único vetor de dispersão. A regeneração natural da vegetação após uma perturbação fica comprometida de uma forma que pode nunca ser detectada em um monitoramento de curto prazo.

"As espécies do gênero Camponotus são grandes participantes das redes ecológicas de interações. Essas redes de conexões ligam as formigas a muitas espécies de plantas, a redes ecológicas de interações distintas — são muito importantes para a manutenção da biodiversidade." — Pesquisador da UFU

Como ler o Cerrado pelos seus formigueiros

Para quem quer entender a saúde de um trecho de Cerrado sem precisar de laboratório, os formigueiros são uma ferramenta surpreendentemente útil. Áreas com alta diversidade de espécies de formigas — incluindo formigas granívoras, predadoras, dispersoras de sementes e cortadeiras — tendem a ser áreas com vegetação nativa mais íntegra e solo mais saudável. Já áreas degradadas mostram uma simplificação dramática da mirmecofauna: poucas espécies, alta dominância das saúvas (que se adaptam bem mesmo em ambientes perturbados) e ausência das espécies mais especializadas.

Nativa do Cerrado, a saúva se dá bem em matas abertas e é um dos grupos de formigas que melhor se adaptou à urbanização. Sua incrível capacidade de adaptação lhe permitiu sobreviver em locais de baixíssima biodiversidade — como as plantações de monoculturas —, ainda que acabe se tornando praga nesses ambientes, com alimento e espaço de sobra para superpopulações. Essa adaptabilidade da saúva é um espelho do que acontece com o Cerrado quando ele é simplificado. O problema não é a formiga — é o ambiente que perdeu a complexidade necessária para abrigar todos os outros tipos de formigas que antes a equilibravam. Sem predadores, sem concorrentes, sem a diversidade que freava seu crescimento, a saúva explode. E vira praga não por ser má, mas porque o sistema ao redor dela foi destruído. 

Da próxima vez que você ver uma trilha de saúvas carregando pedaços de folha verde pelo campo, pare um momento. O que parece uma operação de devastação é, na verdade, uma das fábricas mais antigas e eficientes que a evolução já produziu — trabalhando para manter vivo o solo que sustenta tudo o mais.


Equipe Trilhas do Planalto

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