Oito das doze principais bacias hidrográficas do Brasil nascem no Cerrado. O São Francisco, o Araguaia, o Tocantins, o Xingu, o Tapajós — todos começam aqui. E todos dependem de uma vegetação que está desaparecendo.
Em maio, o nível dos rios no Centro-Oeste começa a cair de forma visível. As margens do Araguaia ficam expostas, surgindo praias de areia branca que atraem turistas para o Tocantins e o norte de Goiás. O Paranaíba estreita seu leito. Os pequenos córregos que em fevereiro corriam cheios começam a mostrar mais pedra do que água. É o ritmo natural do Cerrado — a estação seca chegando, os rios respondendo ao fim das chuvas.
Mas há algo nessa queda de nível que vai além do ciclo normal. Em rios que os moradores mais velhos descrevem como muito mais volumosos há 30 ou 40 anos, a vazão de maio de 2026 já não é a mesma de maio de 1986. E a razão para isso está enterrada no solo vermelho do Planalto Central — ou melhor, no que foi feito com ele.
A floresta de cabeça para baixo
Há uma imagem que os especialistas em hidrologia do Cerrado usam com frequência para explicar como esse bioma funciona: uma floresta de cabeça para baixo. As raízes das plantas do Cerrado são, em média, muito mais volumosas do que suas copas. Algumas espécies têm mais de 70% de sua biomassa abaixo do solo. Essas raízes profundíssimas — algumas atingindo 15 ou mais metros de profundidade — funcionam como bombas e conduítes que levam a água da chuva para as camadas mais profundas do solo, recarregando os aquíferos que, por sua vez, alimentam as nascentes dos rios durante os meses secos.
É um sistema de engenharia hidráulica de uma sofisticação que nenhuma infraestrutura humana consegue replicar. A água que cai em novembro no Cerrado não vai para o rio imediatamente: uma parte dela infiltra, desce pelas raízes, percola pelo solo poroso e emerge meses depois como nascente, mantendo os rios vivos durante a estiagem. Sem essa infiltração lenta e profunda, as chuvas correm superficialmente, causam erosão, chegam aos rios como enxurradas e somem — sem recarregar o que ficou embaixo.
Para alimentar os rios que formam oito das principais bacias hidrográficas da América do Sul, o Cerrado precisa da vegetação de pé: gramíneas, arbustos e árvores são receptáculos da água da chuva que infiltra pelas longas raízes, ajudando a abastecer os aquíferos e as nascentes dos rios que chegam a milhares de quilômetros de distância.
Três aquíferos, metade do continente
Sob o Planalto Central dormem três dos maiores reservatórios subterrâneos de água dulcícula das Américas: o Aquífero Guarani, que se estende pelo Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai e é um dos maiores do mundo; o Aquífero Bambuí, que abastece boa parte do centro e norte de Minas Gerais e o sul da Bahia; e o Aquífero Urucuia, que sustenta as nascentes do São Francisco no oeste baiano e no sul do Maranhão.
Esses aquíferos não são lagos subterrâneos estáticos. São formações rochosas porosas que acumulam e liberam água lentamente — e que só se mantêm cheios enquanto houver vegetação nativa acima deles para garantir a infiltração das chuvas. O Cerrado fornece cerca de 70% da água do Rio São Francisco e 47% da água do Rio Paraná, que abastece a hidrelétrica de Itaipu. Suas águas são importantes ainda para Bolívia, Paraguai, Argentina e Uruguai.
Dito de outra forma: o copo d’água bebido em Recife, a energia elétrica usada em São Paulo, a água que irriga lavouras no Paraguai — tudo isso tem uma conexão direta com o solo poroso do Cerrado e com as raízes das plantas que ainda sobrevivem sobre ele.
O que já se perdeu
O segundo maior bioma nacional, que abrange doze estados, teve quase metade da sua vegetação nativa devastada nos últimos cinquenta anos. E as consequências para os recursos hídricos já são mensuráveis e assustadoras.
Com o desmatamento e a diminuição da vegetação nativa, responsável por levar a água para regiões mais profundas, os aquíferos chegaram ao nível de base, ou seja, deixaram de abastecer diversas nascentes. Um especialista em hidrologia da Embrapa Cerrados descreve o fenômeno com uma analogia precisa: é como uma caixa d’água com vários furos em alturas diferentes. Quando está cheia, a água sai por todos os furos. Conforme vai esvaziando, só sai pelos furos mais baixos — até que não sai mais. Estamos no meio desse processo.
Os números são concretos: municípios do oeste baiano — região do Cerrado mais devastada do país, chamada de Matopiba — apresentam redução de mais de 24% na vazão dos rios. O rio Arrojado, que passa por Correntina (BA), perdeu quase 20% de sua vazão média. Cerca de dez rios desaparecem na região anualmente. Dez rios por ano. Não ficam menores — desaparecem.
“O Cerrado é como uma floresta ao contrário: as raízes são profundas, maiores que as copas. Elas são responsáveis por absorver a água da chuva e depositá-la em reservatórios subterrâneos.” — Pesquisador da Embrapa Cerrados
O que isso significa para as cidades
A crise hídrica não é um problema rural. Em 2017, pela primeira vez na história, o governo do Distrito Federal decretou racionamento de água por tempo indeterminado — exatamente no coração do Cerrado, o bioma que mais abastece o país. A ironia é quase insuportável: a capital federal, construída sobre um dos maiores reservatórios hídricos do continente, racionando água porque destruiu a vegetação que mantinha esse reservatório cheio.
São Paulo, que depende do Sistema Cantareira e de outros sistemas abastecidos por rios que têm suas bacias no Cerrado e na Mata Atlântica, já viveu sua própria crise hídrica severa em 2014 e 2015. As cidades do interior de Goiás e Mato Grosso que captam água de rios cujos afluentes nascem em chapadas desmatadas já convivem com restrições sazonais que se aprofundam a cada ano.
A equação é simples, brutal e ignorada: menos Cerrado significa menos água. Não em algum futuro abstrato — agora, medível, documentável, sensível na pressão da torneira que cai em agosto.
O que você pode fazer: Consumir produtos do Cerrado provenientes de extrativismo sustentável — pequi, baru, murici, óleo de buriti — é uma forma concreta de dar valor econômico ao bioma em pé. Sem valor econômico, o Cerrado continuará sendo derrubado para dar lugar a culturas que rendem mais dinheiro no curto prazo e custam infinitamente mais no longo prazo. A torneira aberta é uma questão política. E começa no que você coloca no prato.
Equipe Trilhas do Planalto

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