O angico e o jatobá: as gigantes do Cerrado que a indústria derrubou e a ciência quer de volta

Elas chegam a 30 metros de altura, vivem mais de 100 anos e sustentam comunidades inteiras de fauna. O angico e o jatobá são duas das árvores mais imponentes do Cerrado — e duas das mais exploradas. Trazê-las de volta é uma das tarefas mais urgentes da restauração do bioma.

Há uma imagem que pesquisadores de restauração ecológica do Cerrado descrevem com frequência quando querem explicar o que foi perdido nas últimas décadas: a mata de galeria antes da exploração madeireira. Árvores de 20, 25, 30 metros de altura sombreando completamente o leito dos rios menores, formando aqueles túneis vegetais que dão nome à formação — galerias de folhas sobre a água. No interior dessas galerias, o angico e o jatobá se erguiam acima de todos os outros, imponentes, antigos, insubstituíveis.

Hoje, em boa parte das matas de galeria do Centro-Oeste, essas duas espécies estão ausentes ou raríssimas. Foram as primeiras a ser exploradas — pela madeira de qualidade excepcional, pela casca medicinal, pelo valor comercial que as tornava alvos prioritários do extrativismo predatório. E como crescem lentamente e vivem muito, sua recuperação natural após a derrubada é um processo de décadas que poucas propriedades rurais têm paciência ou incentivo para esperar.

O angico: a gigante das matas ciliares

O angico (Anadenanthera colubrina) é uma árvore de crescimento rápido, podendo atingir 30 metros de altura. Robusta e resistente, seu tronco pode ter mais de um metro de diâmetro, revestido por casca mais ou menos lisa. Está presente na Caatinga, no Cerrado e na Mata Atlântica. Essa amplitude de ocorrência reflete uma versatilidade ecológica notável — o angico consegue se estabelecer em solos de diferentes texturas e regimes hídricos, desde as matas ciliares úmidas até as formações mais secas de cerradão. 

Dependendo do ambiente e dos cuidados com a árvore, o angico pode viver de 80 a 150 anos. Sua madeira é pesada, muito dura e bastante resistente. Essa madeira excepcional — usada historicamente em construções pesadas, pontes, dormentes ferroviários, assoalhos e marcenaria — foi exatamente o que tornou o angico tão vulnerável à exploração. Quanto mais valiosa a madeira, mais rapidamente a árvore foi derrubada. E quanto mais lentamente ela cresce e se reproduz, mais difícil é sua recuperação natural.

A importância ecológica do angico vai além de sua presença como árvore de destaque. Ele contribui para a fertilidade do solo, oferece abrigo para aves e pequenos animais e ajuda na recuperação de áreas degradadas. No Cerrado, sua sombra e estrutura favorecem o microclima, beneficiando outras espécies ao redor. 

Há ainda uma dimensão farmacológica e histórica pouco conhecida do angico. Como muitas das espécies da flora brasileira, o angico também possui valor medicinal. Sua casca tem propriedades adstringentes, depurativas e hemostáticas — indicadas para reduzir sangramentos, combater diarreias, ajudar na cicatrização da pele e ajudar a eliminar substâncias nocivas que prejudicam a saúde. Comunidades tradicionais do Cerrado usam esses extratos há gerações, e a etnobotânica do angico é um dos campos mais ricos da medicina popular brasileira. 

Há também uma face menos conhecida do angico que merece atenção: a presença de compostos psicoativos nas sementes de algumas espécies do gênero Anadenanthera. O cohoba e o yopo — substâncias usadas em rituais xamânicos por povos indígenas da América do Sul e Central há milênios — são preparados a partir das sementes de Anadenanthera peregrina, espécie próxima do angico do Cerrado. Essa relação entre a árvore e as práticas espirituais indígenas adiciona uma camada de significado cultural ao angico que vai muito além de sua madeira ou de sua casca medicinal.

O angico não é apenas uma árvore grande. É uma farmácia, um espaço de moradia para dezenas de espécies, um fixador de nitrogênio que melhora o solo ao redor, um produtor de flores que alimentam abelhas em julho — e, para alguns povos, uma porta para outros estados de consciência. Derrubar um angico centenário é destruir um ecossistema inteiro de relações que levou décadas para se formar.

O jatobá: o guardião das galerias

O jatobá (Hymenaea courbaril) é um dos integrantes das matas de galeria do Cerrado — tipo florestal que se desenvolve nas margens dos rios de pequeno porte, onde as copas das árvores se encontram sobre o corpo d'água formando túneis, ou galerias. 

O jatobá pode viver mais de 500 anos — tornando-se, em ambientes preservados, um dos organismos vivos mais antigos que o Cerrado abriga. Seus troncos monumentais, com cascas profundamente fissuradas que parecem mapas em relevo, são habitat para uma fauna densa: morcegos que constroem colônias nas fissuras, besouros que vivem na madeira, líquens que crescem na casca, fungos que decompõem as partes mortas sem comprometer o vivo. Uma árvore centenária de jatobá é, ela mesma, um ecossistema.

Seus frutos — vagens lenhosas de casca dura que permanecem na árvore por meses — são consumidos por antas, queixadas, cotias e cutias, que quebram a casca com a força das mandíbulas para acessar a polpa farinosa e adocicada interior. Essa polpa — o jatobá-em-pó — é usada pela culinária popular do Cerrado há séculos: em biscoitos, mingaus, bebidas e como suplemento alimentar, já que é rica em carboidratos, fibras e compostos fenólicos com propriedades antioxidantes.

A madeira do jatobá é uma das mais resistentes e duráveis da flora brasileira — e por isso foi explorada intensamente durante o século XX para uso em construção civil pesada, dormentes, pisos e embarcações. O resultado é que árvores adultas de jatobá são hoje raras nas matas de galeria que não passaram por algum nível de proteção formal.

O que a ciência está fazendo para trazê-las de volta

O angico é indicado para plantio em florestas mistas destinadas à recomposição de áreas degradadas de preservação, além de ter potencial apícola e medicinal. O angico é uma das árvores aproveitadas com bastante sucesso e indicada para projetos de recuperação ambiental, como o Programa Nascentes, que visa promover a restauração ecológica e proteger os recursos hídricos. 

No caso específico do jatobá, pesquisadores de diversas universidades do Centro-Oeste têm trabalhado no desenvolvimento de técnicas de produção de mudas em escala — um gargalo histórico, já que o jatobá tem germinação lenta e exigente. Avanços recentes em técnicas de escarificação de sementes — processos que imitam a ação das mandíbulas de um cateto sobre a casca do fruto — reduziram significativamente o tempo de germinação e aumentaram a taxa de sucesso das mudas, abrindo caminho para a produção em escala necessária para grandes projetos de restauração.

Para garantir a conservação do angico, são necessários programas de reflorestamento com mudas nativas, manejo sustentável para evitar exploração predatória, educação ambiental que conscientize comunidades locais e monitoramento que garanta o equilíbrio ecológico da região. 

Em julho, quando as matas de galeria do Cerrado mostram o máximo de sua estrutura sem a cobertura densa de folhas da estação chuvosa — deixando visíveis os troncos, a arquitetura dos galhos, a textura das cascas —, é o momento perfeito para observar onde os angicos e jatobás ainda estão e onde eles precisam voltar. Cada tronco centenário que sobreviveu é um banco genético vivo. Cada semente que cai é uma oportunidade. E cada projeto de restauração que os inclui é um investimento que só se realizará completamente daqui a cem anos — mas que alguém, em algum momento, precisou ter a coragem de começar.


Equipe Trilhas Planalto

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