Com a chegada das chuvas e a explosão floral de setembro, os polinizadores do Cerrado entram em sua temporada mais intensa. O que acontece entre uma flor e um polinizador neste mês é a base de tudo que o bioma produzirá nos próximos meses — e um dos processos mais fascinantes e mais ameaçados da natureza brasileira.
Existe uma frase que pesquisadores de polinização usam com frequência para explicar a importância do que fazem: "Sem polinizadores, um terço do que você come desaparece do prato." É uma simplificação — a realidade é mais complexa e mais grave do que qualquer frase captura —, mas tem o mérito de tornar visceral algo que tende a parecer abstrato: a relação entre um inseto e uma flor é a base de uma cadeia que termina na nossa mesa, na nossa farmácia e na nossa economia.
No Cerrado de setembro, essa relação está no seu momento de maior intensidade. Após um curto inverno, setembro chegou, e trouxe consigo a estação das flores. Neste período, as angiospermas desabrocham, deixando tudo mais colorido, perfumado e atraente para os polinizadores, como borboletas, mariposas, pássaros, morcegos e abelhas. Esse processo não acontece por acaso — a primavera é a temporada de reprodução das plantas.
O mercado que se reorganiza
Para entender o que acontece com os polinizadores em setembro, é útil pensar no sistema como um mercado — com oferta e demanda flutuando ao longo do ano. Durante a seca, a oferta de flores foi baixa e os polinizadores sobreviveram com o que havia disponível, percorrendo distâncias maiores e visitando menos flores por hora de forrageamento. A demanda existia, mas a oferta era escassa.
Em setembro, essa dinâmica se inverte de forma dramática. Dezenas de espécies de plantas florescem simultaneamente — os ipês, a cagaita, o barbatimão, o pau-terra, a copaíba, a caroba, a kaliandra e centenas de outras espécies que acumularam energia durante meses para exatamente esse momento. Embora a biodiversidade da flora brasileira garanta flores durante o ano inteiro, a primavera concentra a floração de várias espécies importantes. A oferta explode. E os polinizadores respondem.
As colônias de abelhas sem ferrão — que sobreviveram ao inverno com reservas acumuladas e produção reduzida — começam a expandir rapidamente em setembro. Com mais flores disponíveis, as operárias percorrem distâncias menores, visitam mais flores por hora e retornam ao ninho com patas cada vez mais carregadas de pólen colorido. A rainha, estimulada pela abundância de recursos que as operárias trazem, aumenta a postura de ovos. Em poucas semanas, uma colônia que tinha 200 operárias pode ter 400.
As abelhas como motor do sistema
O Cerrado é considerado um hotspot de biodiversidade e abriga 12.180 espécies de angiospermas catalogadas. Os serviços de polinização prestados pelos polinizadores são fundamentais para a manutenção dessa biodiversidade.
As abelhas nativas sem ferrão do Cerrado — mandaçaias, jataís, mandaguaris, tiúbas — são polinizadoras especializadas de uma fração enorme da flora nativa. Cada espécie tem preferências florais específicas, determinadas pelo tamanho de seu corpo, pelo comprimento de seu aparelho bucal e pela composição química do pólen e néctar que pode processar metabolicamente. Essa especialização cria uma teia de dependências específicas — determinada abelha é o polinizador mais eficiente de determinada planta — que só funciona quando ambos estão presentes no mesmo lugar e no mesmo momento.
Setembro é o momento em que essa sincronia se realiza com a precisão de um relógio que o Cerrado foi afinando ao longo de milhões de anos. As plantas que florescem em setembro são aquelas cujos polinizadores emergem com força em setembro. Os polinizadores que atingem sua máxima atividade em setembro são aqueles que dependem das plantas que florescem nesse período. É uma co-orquestração de tal precisão que qualquer perturbação — um inverno mais longo que o normal, uma primavera mais seca, uma geada fora de época — pode dessincronizar partes do sistema com consequências que levam anos para se manifestar completamente.
Uma flor de ipê-amarelo visitada por uma mamangava em setembro é o começo de uma cadeia que termina, meses depois, num fruto que alimenta uma cotia que dispersa a semente que se torna a árvore que abrigará um ninho de arara que criará filhotes que — daqui a décadas — abrirão flores para outras mamangavas. Setembro é o nó onde tudo se amarra.
Os beija-flores que voltam
Os beija-flores são polinizadores obrigatórios de várias espécies de flores tubulares do Cerrado — aquelas com corola longa e estreita que as abelhas não conseguem acessar eficientemente. Em setembro, com a explosão floral, espécies de beija-flores que passaram parte do inverno em regiões mais baixas e quentes retornam às chapadas e campos abertos do Planalto Central.
Os resultados indicaram que a maioria dos sistemas de polinização associados às plantas lenhosas em áreas protegidas também ocorre nas margens de estrada, com representações de polinização por beija-flores. O beija-flor-de-garganta-verde (Amazilia fimbriata) e o beija-flor-tesoura (Eupetomena macroura) são duas das espécies mais comuns e mais visíveis no Cerrado de setembro — e suas visitas às flores de ipê, barbatimão e kaliandra são um dos espetáculos mais acessíveis que o bioma oferece a quem quer observar a polinização em ação.
A velocidade dos beija-flores — até 90 batidas de asas por segundo — e a precisão com que introduzem o bico no interior de cada flor, sempre no mesmo ângulo, sempre tocando os estames na mesma posição, revelam uma maestria construída por gerações de aprendizado e seleção natural. Cada beija-flor adulto carrega no comportamento de visita às flores um conhecimento acumulado que não está em nenhum livro — está em seus genes e em sua memória de forrageamento.
As borboletas que emergiram das pupas de julho
As borboletas que observamos em nossa edição de 13 de julho — aquelas que passaram o inverno em pupa, se reconstruindo celularmente dentro de crisálidas penduradas em galhos — emergem em massa em setembro. É nessa época que os animais polinizadores, como as abelhas, ficam muito mais ativos, aumentando consideravelmente o ciclo reprodutivo das plantas.
As borboletas recém-emergidas precisam de néctar imediatamente — sua transformação consumiu todas as reservas energéticas, e o adulto não tem reservas para sobreviver sem se alimentar desde o primeiro dia. September, com sua oferta abundante de flores, é o ambiente ideal para esse recomeço. Morfos, helicônios, caligos e as dezenas de outras espécies que passaram o inverno em pupa aparecem simultaneamente nos campos e bordas de mata, criando aquele espetáculo de cor em movimento que discutimos em nossa edição sobre as borboletas do Cerrado.
A ameaça que não para nem em setembro
Aos produtores, reforça-se a necessidade de evitar o uso de defensivos químicos durante a floração. É um alerta que precisaria ser gritado em cada setembro do Cerrado: a temporada de polinização é exatamente quando os agrotóxicos causam mais dano. Uma abelha que visita uma flor contaminada com inseticida morre antes de voltar ao ninho. Uma colônia que perde operárias em escala suficiente colapsa. E as plantas que dependiam daquela colônia para ser polinizadas ficam sem seu serviço — com consequências que se propagam pela teia alimentar inteira.
Adotar um calendário de floradas também traz benefícios para o meio ambiente, como a promoção da biodiversidade e a preservação das abelhas nativas. Com uma variedade de plantas, além de atrair as abelhas, é possível criar um ambiente equilibrado, que favorece outros polinizadores, como borboletas e beija-flores.
Se você tem um jardim, uma varanda ou qualquer espaço verde, setembro é o mês de plantar espécies nativas do Cerrado — não apenas pelo beleza, mas pelo que elas representam para a rede de polinizadores que precisa de combustível nessa época crítica. Cada flor nativa plantada é uma parada a mais no circuito de forrageamento de uma abelha, uma borboleta ou um beija-flor. E cada polinizador que sobrevive ao setembro do Cerrado é um agente de renovação que trabalhará pelo bioma nos próximos doze meses.
Equipe Trilhas do Planalto

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