O Cerrado é o paraíso dos herpetólogos — e um dos mais incompreendidos do mundo quando o assunto é répteis. Espécies que não existem em nenhum outro lugar do planeta habitam suas chapadas e campos. Algumas foram descobertas há menos de 20 anos. Outras podem estar desaparecendo antes de serem encontradas.
Existe uma história que resume bem a situação da herpetologia no Cerrado. O herpetólogo Cristiano Nogueira viajava ao Parque Nacional da Serra da Canastra logo após uma queimada quando encontrou escondido em uma toca um pequeno lagarto bicolor que não era visto há 175 anos — o Stenocercus tricristatus, conhecido pela ciência apenas por um único espécime mantido numa gaveta no Museu de História Natural de Paris desde o século XIX. Um colecionador dinamarquês o havia coletado em algum lugar no centro do Brasil naquela época, mas ninguém sabia onde.
Nogueira identificou 57 novas espécies de répteis no Cerrado de 1998 a 2008. Até agora, cerca de 208 espécies de cobras, 80 de lagartos, 40 de lagartos sem patas, sete de tartarugas e quatro de jacarés foram registrados nas listas oficiais de espécies na região — que não param de crescer.
Cinquenta e sete novas espécies em dez anos. Em um bioma que ocupa o centro do país, não em alguma região remota da Amazônia. Esse número revela duas coisas simultaneamente: a riqueza herpetológica extraordinária do Cerrado, e o quanto ainda sabemos pouco sobre ela.
O lagarto-cobra: nem lagarto, nem cobra, mas fascinante
O lagarto-cobra do gênero Ophiodes — também conhecido popularmente como cobra-de-vidro — é um dos animais mais confundidos e mais mal compreendidos do Cerrado. Na verdade, a cobra-de-vidro se trata de um lagarto, visto que possui pálpebras e um par de patas vestigiais. Isso mesmo, apesar de pequenas, o animal possui um vestígio de patas na parte traseira do corpo. No Brasil, esses lagartos pertencem ao gênero Ophiodes, possuindo 5 espécies descritas, sendo caracterizado pela ausência de membros anteriores externos, patas traseiras reduzidas a retalhos, e a famosa cauda autotômica que pode chegar a ter o dobro do tamanho do resto do corpo.
Essa cauda autotômica — capaz de se soltar do corpo quando o animal é capturado por um predador, continuando a se mexer por minutos para distrair enquanto o lagarto foge — é a característica que deu origem ao nome "cobra-de-vidro": quando a cauda se parte, ela se fragmenta em pedaços como se fosse de vidro quebrando. E depois de algum tempo, o animal regenera a cauda perdida — uma capacidade que está entre os fenômenos biológicos mais estudados pelos cientistas que trabalham com regeneração tecidual.
Em agosto, com o campo seco e o solo aquecido pelo sol intenso, os Ophiodes se tornam mais ativos nas horas mais quentes do dia — deslizando pelo chão do campo com movimentos serpenteantes que frequentemente assustam quem não sabe do que se trata. São vivíparos e as fêmeas podem parir mais de 20 filhotes. Agosto e setembro, com o fim da seca e o início da primavera, correspondem ao período de maior atividade reprodutiva da espécie.
O Cerrado e seu laboratório evolutivo
Platôs e chapadas despontando sobre os campos são comuns no Cerrado. Criadas há milhões de anos, essas formações isoladas ajudaram no desenvolvimento de espécies endêmicas. Essa é a chave para entender por que o Cerrado tem tantos répteis exclusivos: as chapadas e serras do bioma funcionaram, ao longo de milhões de anos, como ilhas de altitude separadas por vales e planícies — e a separação geográfica entre populações é o motor clássico da especiação. Animais que ficaram isolados em uma chapada por tempo suficiente divergiram geneticamente das populações de outras chapadas, tornando-se espécies distintas.
O Cerrado é a savana com a maior biodiversidade do mundo. Isso significa que no bioma existe um alto nível de endemismo, ou seja, espécies que só ocorrem aqui. A Coleção Herpetológica da UnB — CHUNB — tem a maior coleção herpetológica do Cerrado e uma das maiores do Brasil, abrigando mais de 80.000 exemplares de répteis e anfíbios.
O Guia dos Lagartos do Distrito Federal documenta um total de 35 espécies de lagartos, distribuídas em 12 famílias de lagartos, sendo uma família de cobra-de-duas-cabeças. Trinta e cinco espécies apenas no Distrito Federal — uma área de aproximadamente 5.800 km². Para comparação, toda a Europa tem menos de 100 espécies de lagartos no total.
O tropidurus e a estratégia do campo aberto
Entre os lagartos mais comuns e mais visíveis do Cerrado em agosto está o tropidurus (Tropidurus torquatus) — a lagartixa-preta que qualquer morador do Planalto Central conhece: aquele lagarto listrado de preto que fica tomando sol em pedras, muros e afloramentos rochosos, fazendo flexões com o corpo como um atleta aquecendo antes do treino.
Esse comportamento de "flexão" — levantando e abaixando o tronco em movimentos rítmicos — é uma forma de comunicação territorial. O macho que faz mais flexões, mais vigorosamente, está demonstrando sua força para rivais e sua qualidade genética para fêmeas. É um display de aptidão física transformado em dança involuntária — e em agosto, com o pico da atividade reprodutiva, esses displays se tornam mais frequentes e mais elaborados.
O Cerrado tem répteis que não existem em nenhum outro lugar do planeta. Alguns foram descobertos em anos recentes. Outros podem estar desaparecendo antes de serem descritos pela ciência. A herpetologia do bioma é uma corrida contra o tempo — contra o desmatamento que destrói antes de catalogar.
A corrida contra o tempo
Répteis são vitais para os ecossistemas do Cerrado: impedem a superpopulação de insetos e roedores e também servem de alimento para aves e mamíferos. Ao protegê-los, protegem-se outras espécies também.
Na lista do Centro de Conservação e Manuseio de Répteis e Anfíbios, 16 espécies estão ameaçadas de extinção e uma já foi extinta. Além disso, nove lagartos e cinco serpentes completam a lista.
O problema mais urgente não é a perseguição direta — embora ela ocorra, especialmente com serpentes peçonhentas que são mortas por medo ou por equívoco. O problema maior é a destruição do habitat. Espécies de répteis com distribuição restrita a uma única chapada ou afloramento rochoso podem ser extintas completamente por uma única operação de desmatamento — sem que ninguém perceba, sem que qualquer alarme dispare, sem que a ciência tenha tido a chance de sequer descrevê-las.
A primeira forma de conservação é o conhecimento. A população conhece muito pouco da fauna herpetológica. Se você encontrar uma cobra ou lagarto no quintal, deixe o animal em paz. Eles têm mais medo da gente do que a gente deles.
Em agosto, com o sol forte e os répteis em plena atividade, é uma oportunidade única para observá-los com respeito e atenção. Cada lagarto que você vê tomando sol numa pedra é parte de uma história evolutiva de milhões de anos — uma história que o Cerrado está tentando manter viva, apesar de tudo que tem sido feito contra ele.
Equipe Trilhas do Planalto

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