Periquitos e papagaios do Cerrado: os barulhentos que plantam sem saber e que estão sumindo

Uma revoada de periquitos sobre o Cerrado de agosto é um dos espetáculos mais barulhentos e mais coloridos do bioma. Mas por trás do alvoroço, há uma ecologia sofisticada — e uma crise silenciosa que o tráfico e o desmatamento vêm construindo há décadas.

Existe um som que qualquer morador do Planalto Central reconhece imediatamente, mesmo sem ver o que o produz: um chiado alto, agudo, repetitivo, que vem de cima e passa rápido, como se o ar estivesse com pressa. Você levanta os olhos e vê — um bando de periquitos cruzando o céu em formação compacta, as asas batendo rápido, a trajetória certeira em direção a uma copa carregada de frutos que eles já identificaram de longe. Em segundos, sumiram. E o campo voltou ao silêncio de agosto.

Esse flash de cor e barulho é uma das presenças mais características dos biomas brasileiros — e uma das mais ameaçadas. Os psitacídeos são aves que incluem papagaios, araras, periquitos e maracanãs. Essas aves são importantes para os ecossistemas brasileiros, pois ajudam a dispersar sementes e são indicadoras da saúde da floresta. 

O grupo mais colorido — e mais traficado — do Brasil

Em 1500, os colonizadores europeus apelidaram o país de Terra dos Papagaios, devido à presença desses psitacídeos. Quinhentos e vinte e seis anos depois, essa herança está em risco. Os psitacídeos são um dos grupos que mais sofrem com o tráfico de fauna silvestre, pois sua grande diversidade de cores e capacidade de imitar a voz humana desperta o interesse de pessoas no mundo todo, movimentando milhões de dólares estadunidenses por ano. Quando esses animais são caçados para a venda, as árvores que possuem ninhos costumam ser derrubadas. 

A ordem dos psitacídeos é o grupo da fauna brasileira com maior número de espécies registradas como ameaçadas de extinção. Essas espécies se encontram em vários níveis de risco: 24 espécies foram classificadas como quase ameaçadas, 37 se encontram vulneráveis, 24 estão em perigo eminente de extinção e 7 estão em situação crítica. Nos últimos 500 anos, 5 espécies foram extintas. 

Esses números são perturbadores. O grupo de aves que deu nome ao Brasil é também o grupo mais ameaçado do país. E o Cerrado, que abriga uma parcela expressiva dessa diversidade, enfrenta as duas ameaças simultaneamente — o desmatamento que elimina ninhos e fontes de alimento, e o tráfico que retira animais vivos da natureza antes que possam se reproduzir.

O que os psitacídeos comem — e o que isso significa para o bioma

São aves que vivem em bandos, utilizam o bico curvo e forte para se alimentar e usam os pés para manipular alimentos — geralmente frutos, sementes, castanhas, flores e brotos. Esse cardápio variado coloca os psitacídeos em uma posição ecológica ambígua e fascinante. 

Tradicionalmente, na literatura, o conhecimento científico é 'psitacídeos são negativos para as plantas', porque eles predam a semente. E, de fato, a maior parte dos registros mostra esses animais destruindo sementes ou flores, o que impossibilita a dispersão e polinização. Nos últimos anos, no entanto, a visão sobre a atuação dos psitacídeos começou a mudar: cada vez mais se descobrem casos, ainda que em menor número, de dispersão de sementes e até de polinização realizadas por essas aves. 

Essa revisão da ciência é importante. Um periquito que come sementes num fruto e as destrói com o bico é um predador de sementes — o oposto de um dispersor. Mas o mesmo periquito que derruba frutos ao se alimentar, que carrega frutos para outros galhos antes de consumi-los, ou que defeca sementes que passaram intactas pelo trato digestivo está prestando um serviço de dispersão. A relação entre os psitacídeos e as plantas do Cerrado é mais complexa do que a categoria simples de "predador" ou "dispersor" consegue capturar.

O papagaio-galego (Alipiopsitta xanthops), por exemplo, tem sido documentado como dispersor de sementes de pequi (Caryocar brasiliense) — uma das dispersões mais importantes do Cerrado, dado o papel ecológico do pequizeiro que já exploramos em edição anterior. Um papagaio que engole a semente de pequi inteira e a defeca longe da planta-mãe está fazendo um serviço que poucos animais do bioma conseguem — as sementes de pequi são grandes e duras, inacessíveis para a maioria dos dispersores menores. 

O periquito que come sua manga verde no quintal é o mesmo animal que, no Cerrado, mantém em circulação sementes que nenhuma outra ave consegue carregar. O barulho que ele faz é perturbador. O trabalho que ele faz é insubstituível.

As espécies do Cerrado

No Cerrado de agosto, com os primeiros frutos da pré-primavera começando a aparecer, os psitacídeos são presença cada vez mais marcante. Existem 13 espécies de papagaios brasileiros distribuídos ao longo dos biomas. No Pantanal e no Cerrado habitam três espécies. O papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva), com sua plumagem verde e a testa azulada, é o mais comum e o mais vistoso — e também o mais visado pelo tráfico, por sua facilidade de adaptação ao cativeiro e sua capacidade de imitar sons. 

Entre os periquitos, o tuim (Forpus xanthopterygius) — minúsculo, esverdeado, com manchas azuis nas asas — forma bandos barulhentos que percorrem os campos em busca de gramíneas com sementes. A maracanã-verdadeira (Primolius maracana) é uma das mais elegantes — com dorso verde, barriga avermelhada e uma máscara facial azul — e ocupa as bordas de matas de galeria onde encontra tanto os frutos que come quanto os ocos de árvores onde nidifica.

O aumento ou diminuição dos psitacídeos em uma região pode indicar mudanças na biodiversidade, no clima e na qualidade do ar. Essas aves coloridas são um lembrete constante da importância de proteger e preservar nossas florestas. 

O tráfico que destrói por dentro

O tráfico de psitacídeos funciona de uma forma que amplifica seus danos além do óbvio. Não é apenas o animal capturado que se perde — é o ninho, é a árvore que muitas vezes é derrubada para acessar o ninho, são os filhotes que morrem no transporte antes de chegar ao comprador final. Estima-se que para cada animal que chega vivo a um comprador, vários morreram no caminho — e todos eles foram retirados do bioma sem retorno.

O Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Papagaios (PAN Papagaios) foi inaugurado em 2010. Mas a implementação desse plano enfrenta os desafios clássicos da conservação brasileira: fiscalização insuficiente, penas brandas para traficantes e um mercado consumidor que muitas vezes não sabe — ou não quer saber — a origem do animal que compra.

O que fazer: Nunca compre periquitos, papagaios ou qualquer psitacídeo de origem desconhecida — e desconfie de preços baixos, que quase sempre indicam animal retirado da natureza. Se você suspeitar de tráfico de fauna, denuncie ao IBAMA (0800 061 8080) ou à Polícia Federal. E se você tem um psitacídeo legalmente registrado, valorize-o — mas saiba que nenhuma gaiola, por maior que seja, substitui o céu do Cerrado de agosto para um animal que nasceu para cruzá-lo em revoada.


Equipe Trilhas do Planalto

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