O desaparecimento da biodiversidade nem sempre acontece de forma abrupta ou visível. No Cerrado, muitas vezes, a perda começa em silêncio. Sons que deixam de ser ouvidos, flores que não voltam a surgir, animais que já não cruzam os campos ao amanhecer. Esses sinais sutis indicam que o bioma está enfraquecendo — mesmo quando a paisagem ainda parece intacta.
Um dos primeiros alertas é a redução da fauna. Aves param de cantar em determinadas áreas, insetos se tornam escassos e mamíferos passam a evitar regiões antes utilizadas. Esse silêncio não é apenas ausência de vida sonora: ele revela a quebra de cadeias ecológicas. Sem polinizadores, plantas deixam de frutificar; sem frutos, animais migram ou desaparecem; sem fauna, o Cerrado perde parte de sua capacidade de regeneração.
Na flora, o impacto aparece como empobrecimento da paisagem. Áreas degradadas mantêm algumas árvores em pé, mas perdem diversidade. As floradas coletivas se tornam raras, o solo fica exposto e a vegetação baixa deixa de cumprir seu papel de proteção. Com menos raízes profundas e cobertura vegetal, a água deixa de infiltrar corretamente, comprometendo nascentes e cursos d’água.
O silêncio também alcança o solo. Microrganismos, insetos e fungos desaparecem com a compactação da terra e o uso inadequado do território. Sem essa vida invisível, o solo perde fertilidade, a ciclagem de nutrientes é interrompida e o Cerrado entra em um processo lento de esgotamento. É um colapso que começa por baixo e sobe, afetando tudo o que depende desse alicerce.
Esse cenário silencioso costuma anteceder danos mais graves. Onde a biodiversidade desaparece, surgem erosões, incêndios mais intensos, escassez de água e perda definitiva de espécies. Por isso, o silêncio do Cerrado não deve ser ignorado — ele é um pedido de atenção.
Ouvir o Cerrado é um ato de conservação. Valorizar seus sons, suas cores e sua diversidade é reconhecer que a vida no bioma depende de equilíbrio constante. Quando o Cerrado silencia, não é descanso: é alerta. E ainda há tempo de responder, protegendo o que resta e restaurando o que foi perdido, antes que o silêncio se torne permanente.
Equipe Trilhas do Planalto

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