Como o fogo faz parte do ciclo de vida da vegetação do Cerrado
Quando o fogo é natureza
Há um paradoxo que confunde quem vê pela primeira vez o Cerrado ser
consumido pelas chamas: aquele bioma que parece morrer diante dos olhos é, na
verdade, um dos mais preparados para sobreviver ao fogo. Não apenas sobreviver,
mas depender dele.
Diferentemente da Amazônia, onde o fogo é devastação quase sempre
irreversível, no Cerrado a relação com as chamas tem milhões de anos de
história. As plantas que habitam esse bioma evoluíram lado a lado com as
queimadas naturais provocadas por raios, e carregam no próprio corpo as marcas
dessa convivência: cascas grossas e corticosas, raízes que mergulham dezenas de
metros no solo, sementes que precisam do calor intenso para germinar.
O Cerrado queima por
cima, mas vive por baixo. A biomassa subterrânea desse bioma é até cinco vezes
maior do que a parte aérea visível — e é ela que garante a regeneração depois
das chamas.
Pesquisadores do Ibama e da Universidade de Brasília estimam que, antes
da ocupação humana intensa, o Cerrado passava por queimadas naturais a cada
dois ou três anos em média. Esse ciclo moldou não apenas as plantas, mas os
animais, os insetos, os fungos e até a composição química do solo. O fogo era,
e em parte ainda é, uma ferramenta da própria natureza.
A anatomia da resistência
Se você já parou diante de um pau-terra, de um barbatimão ou de um
caju-do-cerrado logo depois de uma queimada, sabe do que estamos falando. A
casca carbonizada por fora esconde um tronco intacto. Isso não é acidente: é
engenharia evolutiva.
A casca das árvores nativas do Cerrado é composta por camadas de cortiça
com altíssima capacidade isolante. Enquanto o fogo consome as folhas e os
galhos mais finos, o interior da planta permanece protegido. Em questão de
semanas após a queimada, as mesmas árvores que pareciam mortas começam a brotar
com uma intensidade que surpreende quem não conhece o bioma.
E não é só isso. Muitas espécies, como a canela-de-ema e diversas
orquídeas terrestres, utilizam o calor e a cinza como gatilho para a floração.
A queimada limpa o terreno, elimina a competição e libera nutrientes que
estavam presos na matéria orgânica acumulada. O resultado, semanas depois, é
uma explosão de cores no meio da terra enegrecida.
Raízes que vão fundo: a estratégia subterrânea
A grande aposta do Cerrado contra o fogo não está no que se vê acima do
solo, mas naquilo que fica escondido sob a terra vermelha e ácida do planalto
central. As raízes das plantas cerradeiras são desproporcionalmente grandes em
relação à parte aérea.
O barbatimão, por exemplo, pode ter raízes que chegam a 18 metros de
profundidade. O pequi, símbolo gastronômico do interior goiano, investe tanto
no sistema radicular que uma árvore adulta tem mais de dois terços de sua
biomassa total enterrada. Essa massa subterrânea é o banco de reservas que
alimenta a regeneração depois do fogo.
Pesquisadores chamam esse conjunto de estruturas subterrâneas de 'oga' —
um termo que se popularizou entre os ecólogos para descrever os órgãos
gemíferos subterrâneos que permitem às plantas do Cerrado rebrotarem
rapidamente. É como se o bioma mantivesse um arquivo vivo debaixo da terra,
pronto para ser acionado quando as chamas passam.
Fogo ecológico versus fogo criminoso
Aqui mora um dos mal-entendidos mais perigosos sobre o Cerrado: a
confusão entre o fogo que faz parte do ciclo natural do bioma e aquele
provocado de forma descontrolada pelo ser humano, sobretudo para abertura de
pasto ou por descuido.
O fogo ecológico, também chamado de queima prescrita, ocorre geralmente
no início da estação seca, quando a vegetação ainda retém alguma umidade e as
temperaturas não atingiram os picos mais extremos. Ele percorre a paisagem em
velocidade moderada, raramente afetando os estratos mais baixos do solo, e
permite que animais se desloquem. O Cerrado conhece esse fogo e sabe lidar com
ele.
O fogo criminoso, por outro lado, ocorre no auge da seca, quando o vento
está forte e o ar está absolutamente seco. Ele se move com uma velocidade e uma
intensidade que as plantas não estão preparadas para suportar. Mata não só a
parte aérea, mas destrói as sementes armazenadas na camada superficial do solo,
carboniza raízes rasas e pode até comprometer os sistemas radiculares mais
profundos de árvores jovens.
A diferença entre o
fogo que renova e o fogo que destrói não está na chama em si, mas no momento,
na intensidade e na frequência com que ele ocorre.
O que ressurge das cinzas
Quem visita uma área de Cerrado algumas semanas após uma queimada
moderada vive uma experiência quase mística. O chão enegrecido começa a ser
pontilhado de verde com uma rapidez impressionante. Gramíneas, como o
capim-barba-de-bode, são as primeiras a aparecer. Logo depois chegam as ervas e
subarbustos de flores vistosas.
Insetos polinizadores, que muitas vezes se refugiam em tocas no solo
durante o fogo, retornam em busca das primeiras flores. Aves como o
gavião-caboclo aproveitam o terreno aberto para caçar lagartos e insetos que o
fogo desalojou. Em poucas semanas, a paisagem que parecia uma cicatriz se
transforma em um mosaico de vida.
Para muitas espécies da fauna, as áreas recém-queimadas são, na verdade,
áreas de alimentação privilegiadas. O lobo-guará, por exemplo, frequenta essas
regiões em busca da lobeira e de pequenos vertebrados que saíram de suas tocas.
O tamanduá-bandeira aproveita os cupinzeiros expostos. A queimada,
paradoxalmente, alimenta.
O papel da conservação
Compreender o fogo como parte do Cerrado, e não como seu inimigo
absoluto, é um passo importante para a conservação do bioma. O manejo integrado
do fogo, que combina queimas prescritas em momentos adequados com o combate a
incêndios descontrolados, é hoje uma das ferramentas mais eficazes para
preservar a biodiversidade cerradense.
O ICMBio e diversas organizações não governamentais vêm desenvolvendo e
ampliando programas de manejo do fogo em unidades de conservação no Cerrado. A
ideia não é eliminar o fogo, mas entendê-lo e, quando necessário, usá-lo como
ferramenta de gestão — da mesma forma que o próprio bioma faz há milhões de
anos.
O Cerrado queima. E é exatamente por isso que ele renova. Essa é a lição
que o planalto central tem para nos ensinar: às vezes, é preciso deixar o fogo
passar para que a vida encontre seu caminho de volta.
Equipe Trilhas do Planalto

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