O que existe abaixo do que vemos
Há um mundo completo sob os nossos pés quando caminhamos pelo Cerrado.
Não está escondido por falta de existência, mas por uma questão de escala: seus
habitantes medem milionésimos de metro, suas estradas são filamentos mais finos
que um fio de cabelo, e suas cidades se estendem por quilômetros em todas as
direções, completamente invisíveis a olho nu. É o reino dos fungos
micorrízicos, e sem ele o Cerrado simplesmente não existiria como o conhecemos.
A palavra “micorriza” vem do grego e significa, literalmente,
“fungo-raiz”. Descreve a união entre certas espécies de fungos e as raízes das
plantas — uma parceria que não é parasitismo nem convivência indiferente, mas
uma simbiose obrigatória: os dois organismos dependem um do outro para
sobreviver e prosperar. No Cerrado, onde o solo é antigo, ácido e pobre em
nutrientes essenciais como o fósforo, essa parceria não é apenas útil — é a
condição básica da vida vegetal.
Como funciona a parceria
Imagine que uma árvore jovem de pequi (Caryocar brasiliense) germina no
solo vermelho e ácido do planalto central. Para crescer, ela precisa de fósforo
— um nutriente essencial para a formação de ATP, a molécula de energia celular,
e para a construção do DNA. Mas o fósforo no solo do Cerrado está preso em
formas químicas que as raízes convencionais não conseguem absorver. A árvore,
sozinha, morreria de fome no meio de um solo tecnicamente rico.
É aqui que entra o fungo micorrízico. Seus filamentos — chamados de hifas
— são microscopiçamente finos e conseguem penetrar em microporos do solo que as
raízes da planta jamais alcançariam. Eles produzem enzimas específicas que
quebram os compostos de fósforo insolubíveis, liberam o nutriente e o
transportam até a raiz da planta. Em troca, a planta fornece ao fungo açúcares
produzidos pela fotossíntese — a única coisa que o fungo não consegue produzir
sozinho, pois não tem cloroplastos.
É um negócio absolutamente justo: a planta dá energia; o fungo dá acesso
a nutrientes. E os dois crescem juntos muito mais do que cresceriam separados.
Estudos realizados pela Embrapa Cerrados mostraram que plantas de Cerrado
criadas sem fungos micorrízicos em condições experimentais crescem até dez
vezes menos do que aquelas que têm acesso ao fungo.
O fósforo é a moeda do
Cerrado. O solo tem muito, mas em formas inacessíveis. Os fungos micorrízicos
são os únicos que sabem abrir o cofre — e compartilham o conteúdo com quem os
alimenta.
A internet das plantas
A coisa fica ainda mais fascinante quando se percebe que as hifas de um
fungo não se conectam a apenas uma planta. Um único fungo micorrízico pode
colonizar as raízes de dezenas, às vezes centenas de plantas diferentes ao
mesmo tempo. Isso cria uma rede subterrânea de filamentos que interliga
organismos que, acima do solo, parecem completamente independentes.
Os cientistas já demonstraram que, através dessa rede, plantas podem
transferir nutrientes entre si. Uma árvore adulta em boa condição nutricional
pode, involuntariamente, “subsidiar” uma árvore jovem das imediatações através
do fungo que conecta suas raízes. Em algumas espécies, há evidências de que
essa transferência é direcionada — a árvore mãe envia mais nutrientes para seus
próprios descendentes do que para plantas não aparentadas.
A analogia com a internet não é pura metáfora: é usada oficialmente por
pesquisadores como Suzanne Simard, da Universidade da Colômbia Britânica, que
ficou conhecida por documentar esse fenômeno em florestas temperadas. No
Cerrado, pesquisadores do Departamento de Botânica da Universidade de Brasília
vêm mapeando redes semelhantes, com resultados que sugerem que a conectividade
subterrânea pode ser ainda mais complexa no bioma do planalto do que nas
florestas estudadas no hemisfério norte.
Quem são esses fungos
Os principais fungos micorrízicos do Cerrado pertencem ao grupo dos
fungos micorrízicos arbusculares (FMA), que formam estruturas chamadas de
“arvores” e “vesículas” dentro das células da raiz da planta. São organismos
antigos — estima-se que esse tipo de simbiose existe há pelo menos 450 milhões
de anos, muito antes das primeiras plantas com flores terem aparecido na Terra.
Eles não produzem cogumelos visíveis. Toda a sua estrutura é subterrânea
e microscópica, o que os torna praticamente invisíveis para observação direta
no campo. Para estudá-los, os pesquisadores precisam coletar amostras de solo e
raízes, submetê-las a processos de coloração específicos e analisá-las em
microscópio. Só então a teia se revela.
Já foram identificadas mais de 300 espécies de FMA no Brasil, das quais
uma parcela significativa ocorre exclusivamente no Cerrado. Cada espécie de
fungo tem preferências por determinadas espécies vegetais e por determinadas
características de solo. Isso significa que a diversidade de fungos é tão
importante para a saúde do bioma quanto a diversidade de plantas ou animais — e
é muito mais vulnerável ao desmatamento, pois não tem como migrar.
O que o desmatamento faz com a teia invisivel
Quando uma área de Cerrado é desmatada e o solo é revolvido para o
plantio de soja ou para a implantação de pastagem, a rede de fungos
micorrízicos é destruída. Não parcialmente — completamente. O revolvimento
mecânico do solo pela aração corta e fragmenta os filamentos finos das hifas; a
exposição ao sol e ao ar seca o material orgânico que sustenta a rede; os
fungicícidas aplicados nas lavouras eliminam os esporos que poderiam
recolonizar o ambiente.
O resultado é que, mesmo que a vegetação nativa seja replantada anos
depois, ela encontra um solo biologicamente empobrecido, sem a rede de suporte
que permitia às plantas originais sobreviver em condições de baixa fertilidade.
A recuperação espontânea da rede fúngica pode levar décadas — algumas pesquisas
sugerem que certas espécies de FMA não se recuperam jamais em solos que
passaram por agricultura intensiva convencional.
Isso tem implicações práticas importantes para os programas de
restauração ecológica do Cerrado. Plantar mudas nativas em solos degradados sem
reintroduzir os fungos micorrízicos corretos é como montar um computador sem
instalar o sistema operacional: o hardware está lá, mas o sistema não funciona.
Pesquisadores da UnB e da Embrapa já desenvolvem técnicas de inoculação de FMA
em mudas antes do plantio, com resultados promissores para acelerar a
recuperação de áreas degradadas.
Uma ciência que ainda engatinha
Por mais que saibamos hoje sobre os fungos micorrízicos do Cerrado, o
conhecimento é ainda superfície. A maioria das espécies de fungos do bioma
nunca foi descrita cientificamente. As redes de interconexão entre plantas e
fungos foram mapeadas em pouquíssimos locais. Os mecanismos moleculares que
regulam a transferência de nutrientes dentro das hifas ainda são amplamente
desconhecidos.
Em um momento em que o Cerrado perde centenas de milhares de hectares por
ano para a expansão agrícola, estamos destruindo um sistema que não entendemos
ainda. É como queimar uma biblioteca antes de ter lido os livros — e nem mesmo
saber quantos livros ela contém.
A próxima vez que você caminhar pelo Cerrado e sentir a terra firme sob
os pés, lembre-se: abaixo de cada passo, a milionésimos de metro de distância,
filamentos invisíveis trabalham incessantemente para manter o bioma de pé. É
uma das engenharias mais antigas e mais sofisticadas que a evolução já
produziu. E ela começa exatamente onde o asfalto termina.
Equipe Trilhas do Planalto

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