O grupo mais colorido do Cerrado
Existem no Brasil aproximadamente 3.500 espécies de borboletas descritas
pela ciência — cerca de um terço de todas as espécies conhecidas no mundo. E
uma parcela considerável desse erário de cor e forma tem seu lar no Cerrado. O
bioma do planalto central, com sua mistura única de campos abertos, matas de
galeria, veredas e cerradões, oferece uma variedade de microambientes que
permite a coexistência de espécies com os hábitos mais distintos.
Para quem não é entomólogo de formação, observar borboletas pode parecer
uma atividade de lazer descompromissada. Mas para quem começa a entender a
ecologia desses animais, cada borboleta pousada em uma flor é uma janela para
uma rede de relações biológicas de uma complexidade extraordinária: relações
entre a borboleta e a planta hospedeira de suas larvas, entre a borboleta e os
fungos que colonizam as folhas que ela come na fase de lagarta, entre a
borboleta e os predadores que ela tenta enganar com suas cores e padrões de
voo.
As azuis que param o tempo
A família Morphidae contém algumas das borboletas mais deslumbrantes do
mundo — e o Cerrado tem representantes dessa família que rivalizam em beleza
com qualquer espécie tropical. A Morpho helenor, com suas asas azul-metálico
que podem ultrapassar 15 centímetros de envergadura, é talvez a mais famosa do
grupo. Quando voa, cria um efeito estroboscópico hipnótico: a face dorsal das
asas, de um azul irresistível, alterna com a face ventral marrom-criptográfica,
criando um piscar de cor que confunde predadores e deslumbra observadores.
O azul das borboletas Morpho não é produzido por pigmento. É um fenômeno
óptico chamado de iridescência estrutural: as asas têm uma microestrutura de
escamas sobrepostas em ângulos calculados que fragmentam e refletem a luz de
forma a produzir apenas as frequências do azul. Dependendo do ângulo de visão,
a mesma asa pode parecer azul-royal, azul-céu ou quase verde. Nenhuma tinta
produzida pelo ser humano reproduz esse efeito com fidelidade.
Nas matas de galeria do Cerrado — as florestas que acompanham os córregos
e ribeiros —, é comum ver Morphos voando em ziguezague acima da água, no hábito
característico de patrulha territorial dos machos. Ver uma dessas borboletas em
pleno voo sob a luz da manhã é uma experiência que não se esquece.
Dizem os caboclos do
Cerrado que ver uma borboleta azul pousada em sua mão traz sorte. A ciência não
confirma a lenda. Mas também não encontrou nada que a contradiga.
As amarelas dos campos abertos
Se as Morphos dominam as matas, os campos abertos do Cerrado pertencem às
borboletas da família Pieridae — as “amarelas”, como são genericamente
chamadas. Os gêneros Phoebis, Aphrissa e Catopsilia produzem espécies de
amarelo intenso ou branco crémoso que voam em grandes grupos sobre as
gramaíneas dos campos, especialmente nas bordas das matas e ao longo dos
córregos.
Em certos meses do ano, especialmente na transição entre a seca e as
chuvas, é possível ver migrações de Pieridae que parecem nuvens amarelas
movendo-se em direção ao norte. Essas migrações, que podem envolver milhões de
indivíduos, são um dos fenômenos naturais mais espetaculares do Cerrado e ainda
são pouco compreendidas pelos pesquisadores. Para onde exatamente migram, onde
desovam e por que migram na época em que migram são questões ainda abertas na
literatura científica.
Mimetismo e ilusão: borboletas que mentem
O Cerrado é um campo fértil para o estudo do mimetismo em borboletas.
Duas formas principais de mimetismo ocorrem no bioma: o mimetismo batesiano, no
qual uma espécie comestível imita a coloração aposemática — de aviso — de uma
espécie tóxica ou de sabor ruim; e o mimetismo mulleriano, no qual duas ou mais
espécies tóxicas convergem para o mesmo padrão de coloração, reforçando o
aprendizado dos predadores.
As borboletas do gênero Heliconius, com seus padrões de faixas vermelhas
e amarelas sobre fundo preto, são um dos exemplos mais estudados de mimetismo
mulleriano nas Américas. No Cerrado, diversas espécies de Heliconius ocorrem
nas bordas das matas e nas clareiras, e sua abundância relativa muda ao longo
do ano conforme as populações se deslocam em busca das plantas do gênero
Passiflora, das quais suas lagartas dependem exclusivamente.
O mais impressionante do mimetismo das Heliconius é que, em regiões
diferentes, a mesma espécie pode ter padrões de cor completamente diferentes,
pois ela mimetiza a espécie tóxica local dominante. Uma Heliconius erato na
fronteira com a Amazônia tem um padrão diferente da mesma espécie no centro do
Cerrado. É evolução em tempo real, documentável em uma única geração de
pesquisadores.
A relação com as plantas: uma dependência milionária
Cada espécie de borboleta tem uma relação específica com uma ou poucas
espécies de plantas hospedeiras — as plantas nas quais a fêmea deposita seus
ovos e das quais as lagartas se alimentam. Essa especificidade é o resultado de
milhões de anos de coevolução: as lagartas desenvolveram a capacidade de
metabolizar os compostos tóxicos que as plantas produzem para se defender, e as
plantas, por sua vez, desenvolveram novos compostos para escapar. É uma corrida
armamentista evolutiva que nunca termina.
No Cerrado, essa relação adquire dimensões práticas importantes para a
conservação. Quando uma espécie de planta nativa desaparece de uma área por
causa do desmatamento, todas as borboletas que dependem dela também desaparecem
— mesmo que outras plantas estejam presentes. A perda de uma planta hospedeira
pode representar a extinção local de várias espécies de lepidópteros, com
efeitos em cascata para os predadores que delas dependem.
Esse fato torna as borboletas indicadores ecológicos de qualidade
ambiental excepcionalmente sensíveis. A diversidade de borboletas em uma área
reflete, com precisão quase diagnóstica, a diversidade e a integridade da
vegetação nativa. É por isso que projetos de monitoramento de longo prazo, como
os realizados pela Associação Borboletarium de Brasília e por pesquisadores do
INPA, usam borboletas como organismos-sentinela para acompanhar a saúde do
Cerrado.
Como observar borboletas no Cerrado
Abril é um mês excelente para a observação de borboletas no Cerrado. As
primeiras chuvas já reativaram a vegetação, os recursos florais estão
abundantes e a umidade do ar reduzida da seca já deu lugar a uma atmosfera mais
quente e úmida. As borboletas adoram.
Para quem quer começar, os equipamentos são mínimos: um binóculo compacto
de foco próximo (chamado de “bino de close”), um caderno de campo e,
idealmente, um guia de campo como o “Borboletas Brasileiras” de Freitas &
Marini-Filho. A hora do dia importa muito: a maioria das borboletas diurnas
está mais ativa entre 9h e 14h, quando o sol está alto o suficiente para
aquecê-las, mas antes do calor máximo da tarde.
As bordas entre diferentes tipos de vegetação são os melhores pontos de
observação: a transição entre um campo limpo e uma mata de galeria, por
exemplo, costuma concentrar espécies de ambientes abertos e fechados ao mesmo
tempo. Flores de planta-nativa, como a lantana e diversas espécies de
Asteraceae, são iscas naturais irresistíveis. Muitas borboletas também descem
até pocinhos de água na beira de córregos para “puddling” — a absorção de sais
minerais através da água parada —, o que oferece oportunidades de observação de
perto.
Equipe Trilhas do Planalto


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