Um bilhão e oitocentos milhões de anos em cada pedra
Há lugares no mundo onde a Terra conta sua própria história a quem tem
paciência para ouvir. A Chapada dos Veadeiros, no nordeste de Goiás, é um
desses lugares — e a história que ela conta é mais antiga do que qualquer vida
complexa já existiu sobre este planeta. As rochas que formam o substrato da
Chapada são quartzitos de 1,8 bilhão de anos de idade, moldadas por uma era em
que a vida na Terra ainda era exclusivamente microbiana e os oceanos tinham uma
composição química completamente diferente da atual.
Esses quartzitos, formados pela pressão e temperatura que transformaram
antigos sedimentos de praia em rocha sólida ao longo de eras geológicas, são
quimicamente quase puros: são mais de 95% sílica. E é essa pureza química
extrema que define tudo sobre o ecossistema da Chapada: o solo é pobre em
nutrientes por causa das rochas; a água que escoa pelas encostas é cristalina
por causa das rochas; as plantas que aqui cresceram ao longo de milhões de anos
de evolução são únicas por causa das rochas.
O Vale da Lua: a paisagem de outro mundo
Dentro do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, nenhuma formação
geológica é mais visitada e mais fotografada do que o Vale da Lua. Localizado
próximo à entrada do parque, na região de São Jorge, o vale é o resultado de
milhões de anos de erosão do Rio São Miguel sobre o quartzito, que esculpiu a
pedra em formas que parecem ter sido modeladas por uma mente muito diferente da
que criou o resto do mundo.
As rochas arredondadas pelo atrito contínuo da água formam piscinas
naturais, corredores, anfiteatros e superfícies que lembram a textura de pele
de elefante ou de cascas de árvore milenares. A cor varia do branco quase puro
ao cinza-prateado e ao rosa pálido, dependendo das impurezas minerais presentes
na rocha. Em certas horas do dia, quando o sol bate em ângulo reto sobre as
superfícies polidas, as pedras cintilam de uma forma que justifica plenamente a
comparação com cristais.
A visita ao Vale da Lua é mais do que uma caminhada. É uma experiência
tátil: as pedras pedem para ser tocadas, as piscinas convidam ao mergulho nas
águas frias e transparentes do Rio São Miguel, os rechãs de rocha plana
oferecem mesas e cadeiras naturais para quem quer apenas sentar e contemplar a
paisagem por um tempo que não tem unidade de medida.
A Chapada dos Veadeiros
não é um destino para quem tem pressa. É um destino para quem quer ser lembrado
de que o tempo humano é apenas uma nota de rodapé na história do planeta.
A flora rupestre: adaptação ao extremo
O solo raso, ácido e pobre sobre o quartzito da Chapada não seria, para a
maioria das plantas, um lugar onde viver. Mas a flora rupestre do Cerrado — o
conjunto de espécies adaptadas especificamente a crescer em afloramentos
rochosos — encontrou nesse ambiente inospitaleiro um nicho livre de competição,
e o colonizou com uma criatividade evolutiva que ainda surpreende os botânicos.
As alwaysias — mais conhecidas como “capins-dourados” rupestres — crescem
diretamente sobre a rocha, suas raízes penetrando em fissuras microscópicas
onde um mínimo de solo se acumulou ao longo de anos. As canelas-de-ema
(Vellozia spp.) formam troncos fibrosos cobertos por bainhas de folhas mortas
que funcionam como esponja, absorvendo a água das chuvas e retendo umidade nos
períodos de seca. Cada adaptação é uma solução elegante para um problema
extremo.
Em abril, com as primeiras chuvas já tendo chegado, a flora rupestre da
Chapada está em plena transição: as espécies que floresceram no período seco
estão formando frutos, enquanto as espécies que dependem da umidade para
florescer começam a mostrar seus botões. É uma das melhores épocas do ano para
observar a diversidade botânica do parque.
A fauna da Chapada: espécies e endemismos
A Chapada dos Veadeiros abriga uma fauna rica e diversificada, com
destaque para espécies que têm na paisagem rupestre seu habitat exclusivo ou
preferencial. O pato-mergulhão (Mergus octosetaceus), uma das aves mais
ameaçadas do Brasil, ainda ocorre nos rios de água cristalina do parque. A
suindara (Tyto furcata), coruja que não precisa de árvores para se abrigar, usa
as reentrâncias dos afloramentos rochosos como local de nidificação.
Os campos rupestres da Chapada são também um dos principais redutos do
tatu-canastro (Priodontes maximus), o maior tatu do mundo, que pode pesar até
50 quilogramas e cavar tocas que atingem três metros de profundidade. Embora
difícil de ver — é um animal de hábitos crepusculares e noturnos —, o
tatu-canastro deixa sinais inconfundíveis de sua presença: buracos enormes na
beira dos campos e rastros que parecem ter sido feitos por uma escavadeira em
miniatura.
Os répteis também encontram na paisagem rochosa da Chapada um ambiente
ideal. O lagarto-bravo (Tupinambis teguixin) aquece-se nas pedaleiras expostas
ao sol da manhã. Diversas espécies de Tropidurus — os “lagartos-de-pedra” — são
altamente especializados para viver sobre afloramentos rochosos, com patas que
se agarram a superfícies inclinadas e colorido críptico que os faz quase
invisíveis sobre o quartzito.
As cachoeiras: água que a rocha afina
A Chapada dos Veadeiros tem, além do Vale da Lua, um conjunto de
cachoeiras que estão entre as mais belas de todo o Brasil Central. A Cachoeira
dos Couros, a Cachoeira da Cariã, o Salto do Rio Preto e, dentro do Parque
Nacional, as Cachoeiras de Cima e de Baixo, formadas pelo Rio Preto, são
destinos que justificam por si sós a viagem.
O que torna as cachoeiras da Chapada visualmente tão distintas das de
outras regiões do Brasil é precisamente a rocha. A água que escoa sobre o
quartzito não carrega sedimentos em suspensão — ela já passou por uma roca que
funciona como filtro natural. O resultado são águas de uma transparência
extrema, com tonalidades que variam do verde-esmeralda ao azul-turquesa,
dependendo da profundidade e do ângulo de incidência da luz.
Em abril, após as primeiras chuvas mas antes do pico da cheia, o volume
de água nas cachoeiras está em crescimento, o que significa que a potência das
quedas já é impressionante, mas as piscinas naturais na base das cascatas ainda
são acessíveis para banho. É uma das janelas de tempo ideais para visitar a
Chapada.
Como chegar e onde se hospedar
A principal porta de entrada para o Parque Nacional da Chapada dos
Veadeiros é o município de Alto Paraíso de Goiás, a 230 quilômetros de Brasília
pela BR-020 e GO-327. A viagem de carro leva aproximadamente três horas. Uma
alternativa mais charmosa e de mais fácil acesso ao Vale da Lua é o pequeno
distrito de São Jorge, a 36 quilômetros de Alto Paraíso, que é considerado o
epicentro cultural do ecoturismo na região.
São Jorge oferece uma variedade de opções de hospedagem que vai de
pousadas simples e familiares a recantos mais sofisticados com vistas para a
chapada. A gastronomia local merece atenção: restaurantes do vilarejo servem
pratos com ingredientes do Cerrado — pequi, baru, jatobá, faveira — em
preparações que combinam a tradição do interior goiano com uma criatividade
contemporânea crescente.
Antes de entrar no Parque Nacional, é obrigatório o cadastramento no
ICMBio, que controla o número de visitantes diários para garantir a conservação
do ecossistema. As trilhas principais — incluindo o acesso ao Vale da Lua e às
Cachoeiras — requerem guias credenciados, que além de obrigatórios são
genuinamente úteis: eles conhecem os detalhes do ecossistema, identificam a
fauna e a flora pelo caminho e garantem que a visita seja segura e
enriquecedora.
A Chapada dos Veadeiros é um desses lugares que existem em quantidade
cada vez menor no mundo: um lugar onde a natureza ainda é maior do que tudo o
que o ser humano construiu ao redor dela. Chegar lá é um privilégio que deve
ser aproveitado com a consciência de que a melhor forma de garantir que ele
continue existindo é visitá-lo com responsabilidade.
Equipe Trilhas do Planalto

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