Estima-se que o Cerrado abrigue hoje mais de 80 territórios indígenas homologados ou em processo de demarcação, além de centenas de comunidades quilombolas e tradicionais espalhadas por Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins e Minas Gerais. Cada uma dessas comunidades carrega uma biblioteca viva de conhecimento ecológico que a ciência convencional está apenas começando a documentar — e, em muitos casos, a confirmar.
A farmácia do Cerrado
Caminhar com uma liderança Xavante, Kayapó ou Karajá pela vegetação do
Cerrado é uma experiência que desafia qualquer noção prévia sobre o que é
conhecimento. Para cada planta que o visitante vê como parte genérica da
paisagem, o guia indígena tem um nome próprio, uma história, uma indicação
terapêutica, uma contraindicação, uma época certa de coleta e uma forma
específica de preparo.
A canela-de-ema (Vellozia squamata), por exemplo, é usada por diversas
comunidades indígenas do Cerrado em preparações para problemas respiratórios. A
sucupira-branca (Pterodon emarginatus) tem suas sementes utilizadas em óleos e
infusões para dores articulares — e estudos farmacológicos modernos
identificaram compostos anti-inflamatórios nas sementes que corroboram o uso
tradicional. O barbatimão (Stryphnodendron adstringens) é utilizado há gerações
em emplastros para cicatrização de feridas, e hoje é ingrediente ativo em
produtos farmacêuticos comerciais.
Esses não são casos isolados. Uma pesquisa publicada pelo Jardim Botânico
de Brasília identificou mais de 600 espécies de plantas do Cerrado utilizadas
medicinal ou alimentarmente por comunidades tradicionais da região. A maioria
dessas plantas sequer foi estudada pela fitoquímica moderna. O conhecimento
indígena e quilombola está, literalmente, décadas à frente da pesquisa
científica convencional.
Quando uma aldeia perde
seu último pajé sem ter transmitido seu conhecimento, perde-se uma biblioteca
que levou séculos para ser construída. Essa perda é irreversível — mais
permanente do que o desmatamento de uma floresta, porque a floresta pode, com o
tempo, regenerar. O conhecimento perdido, não.
O manejo invisível
Uma das contribuições mais importantes — e menos reconhecidas — dos povos
tradicionais do Cerrado é o manejo ativo da vegetação. Durante séculos, essas
comunidades não apenas coletavam o que o bioma oferecia espontaneamente: elas
moldavam a paisagem de formas sutis que maximizavam a produção de alimentos e
recursos sem destruir a estrutura do ecossistema.
O manejo do pequi (Caryocar brasiliense) é um exemplo claro. Comunidades
do norte de Minas Gerais e do oeste goiano identificavam e protegiam árvores de
pequi particularmente produtivas, podavam galhos de forma seletiva para
estimular a frutificação e criavam aceiros ao redor das árvores para
protegê-las das queimadas mais intensas. O resultado, ao longo de gerações,
eram paisagens com uma concentração anormalmente alta de pequizeiros produtivos
— o que os pesquisadores modernos chamaram de 'florestas culturais', paisagens
que parecem naturais mas carregam as marcas do manejo humano de longa data.
O mesmo ocorre com a mangaba (Hancornia speciosa), o buriti (Mauritia
flexuosa), o baru (Dipteryx alata) e dezenas de outras espécies frutíferas do
Cerrado. As comunidades quilombolas do norte de Goiás, por exemplo, manejam
extensas áreas de buritizais nas veredas, controlando a densidade das
palmeiras, abrindo clareiras para estimular a rebrota e colhendo os frutos de
forma rotativa para garantir que a produção não se esgote.
Os Karajá e o Rio Araguaia
Nenhuma discussão sobre os povos tradicionais do Centro-Oeste pode
ignorar os Karajá — povo indígena que habita as margens do Rio Araguaia há pelo
menos 3.000 anos, segundo os registros arqueológicos disponíveis. Com uma
população de aproximadamente 4.000 pessoas distribuídas em aldeias ao longo do
Araguaia e do Rio das Mortes, os Karajá desenvolveram uma das relações mais
intrincadas entre um povo e um rio que existe nas Américas.
O calendário Karajá é estruturado em torno dos ciclos do Araguaia: a
cheia, que inunda as várzeas e fertiliza os solos; a vazante, que expõe as
praias para a desova das tartarugas e o acampamento das famílias; a seca, época
de pesca intensa e coleta de ovos. Cada fase do ciclo hidrológico corresponde a
uma atividade específica, a um conjunto de alimentos disponíveis e a um
conjunto de rituais que marcam a passagem do tempo.
A cerâmica Karajá, famosa em todo o Brasil pelas figuras de barro
chamadas 'ritxoko', não é apenas arte — é um registro visual de espécies,
situações e personagens do ecossistema do Araguaia. Pássaros, peixes, jacarés,
cenas de pesca e de coleta estão eternizados nessas figuras, que funcionam
também como um arquivo iconográfico da biodiversidade local.
Quilombolas e a resistência pelo bioma
Os quilombos do Cerrado têm uma história particular de resistência que se
entrelaça com a história da conservação do bioma. Formados a partir do século
XVII por pessoas escravizadas que fugiam das fazendas e minerações do interior,
esses núcleos populacionais se estabeleceram em regiões de difícil acesso,
geralmente nas serras e nas matas mais densas — exatamente as áreas que hoje
concentram a maior biodiversidade remanescente do Cerrado.
O Quilombo Kalunga, no nordeste de Goiás, é um dos maiores e mais
conhecidos do Brasil. Com uma área de quase 260 mil hectares, o território
Kalunga guarda trechos intactos de cerradão, matas de galeria e campos
rupestres que estão entre os mais bem preservados de todo o bioma. A proteção
desse território não é obra do acaso: é resultado direto do modo de vida da
comunidade, que maneja a terra de forma extensiva e mantém áreas de uso
restrito que funcionam, na prática, como reservas biológicas informais.
Comunidades quilombolas como os Kalunga também são guardiãs de variedades
de plantas cultivadas que desapareceram do restante do país. Variedades de
milho, feijão, mandioca e abóbora adaptadas ao Cerrado ao longo de séculos —
com resistência a seca, a solos ácidos e a pragas locais — sobrevivem apenas em
roças tradicionais quilombolas. São recursos genéticos inestimáveis que a
agricultura industrial perdeu e que só existem porque essas comunidades
continuam cultivando.
O desafio da valorização
Reconhecer o valor do conhecimento tradicional é necessário, mas
insuficiente. O grande desafio contemporâneo é criar mecanismos que garantam
que as comunidades que detêm esse conhecimento possam beneficiar-se dele —
econômica, jurídica e culturalmente — em vez de vê-lo ser explorado por
terceiros sem qualquer retorno.
A Lei da Biodiversidade brasileira (Lei 13.123/2015) criou um marco legal
para o acesso ao conhecimento tradicional associado ao patrimônio genético,
exigindo o consentimento prévio das comunidades e o repartição de benefícios.
Na prática, porém, a implementação é desigual e muitas comunidades ainda
carecem de informação e assessoria jurídica para fazer valer seus direitos.
Iniciativas como o Programa de Apoio às Comunidades Quilombolas do ICMBio
e os projetos de etnobotânica da Embrapa Cerrados apontam caminhos. Mas o ritmo
da pesquisa e do reconhecimento jurídico ainda é lento demais para a velocidade
com que os anciãos que carregam esse conhecimento envelhecem e falecem sem ter
transmitido tudo o que sabem.
O Cerrado sobreviveu até hoje em parte porque seus guardiões originais
souberam manejá-lo com sabedoria. Garantir que esses guardiões continuem
existindo, com seus territórios protegidos e seus saberes valorizados, não é
apenas uma questão de justiça social — é uma das estratégias mais eficazes de
conservação ambiental que temos disponíveis.
Equipe Trilhas do Planalto

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