A biodiversidade aquática de um dos maiores rios do Brasil Central
Um rio que parece um mar interior
Há rios que impressionam pela largura, outros pela correnteza, outros
pelo silêncio. O Araguaia impressiona por tudo isso ao mesmo tempo — mas,
sobretudo, pela vida que carrega. Com seus 2.627 quilômetros de extensão,
correndo entre Goiás, Tocantins, Mato Grosso e Pará, ele é um dos maiores e
mais biodiversos rios da América do Sul, e ainda assim permanece
surpreendentemente desconhecido do grande público.
Nascer nas encostas da Serra dos Caiapós, no sudoeste goiano, e desaguar
no Tocantins, perto de São João do Araguaia, é percorrer um dos roteiros mais
ricos em vida silvestre do país. Ao longo desse trajeto, o Araguaia alimenta e
é alimentado por um ecossistema que conecta o Cerrado e a Amazônia, funcionando
como uma ponte biológica entre dois dos mais importantes biomas do planeta.
A riqueza que ninguém vê
Estima-se que o sistema Araguaia-Tocantins abrigue mais de 300 espécies
de peixes catalogadas — e os pesquisadores acreditam que esse número está longe
de ser definitivo. A cada expedição científica ao rio, novas espécies ou pelo
menos novas populações são identificadas. É um dos sistemas fluviais com maior
diversidade de peixes de toda a bacia do Atlântico.
Entre os mais emblemáticos está o pirarucu, o maior peixe de escamas de
água doce do mundo, que pode ultrapassar os dois metros de comprimento e pesar
mais de 200 quilogramas. Encontrá-lo no Araguaia é uma experiência que remete a
uma outra era geológica — e que, infelizmente, está se tornando cada vez mais
rara nas partes do rio mais próximas das cidades.
As piranhas, temidas e muitas vezes incompreendidas, são parte essencial
do ecossistema aquático do Araguaia. Longe de serem os monstros da imaginação
popular, elas funcionam como 'faxineiras' do rio, consumindo carcaças e peixes
doentes, mantendo a saúde do ecossistema. O próprio caboclo ribeirinho, que
conhece o rio como a palma da mão, nada sem medo no Araguaia — desde que
respeite os horários e os lugares onde as piranhas se concentram.
O Araguaia não é só um
rio. É um sistema vivo que respira duas vezes por ano: enchendo-se no período
das chuvas e revelando seus segredos na seca, quando as praias emergem e o
peixe sobe.
Ariranhas: as donas do rio
Se existe um animal que simboliza a saúde de um ecossistema aquático, é a
ariranha. O maior mustelídeo do mundo — pode atingir 1,8 metro de comprimento —
é um predador de topo que se alimenta principalmente de peixes. Isso significa
que, para existir em determinado trecho de um rio, a ariranha precisa que esse
rio tenha água limpa, peixes abundantes e margens preservadas.
No Araguaia, grupos familiares de ariranhas ainda podem ser observados,
especialmente nos trechos mais preservados do rio, na região da Ilha do Bananal
e ao longo da fronteira entre Mato Grosso e Pará. Ver uma família de ariranhas
pescando em conjunto — com seus gritos agudos de comunicação, sua coordenação
impressionante na perseguição dos peixes — é um dos espetáculos mais
fascinantes que a natureza brasileira oferece.
A presença das ariranhas é, portanto, um indicador ecológico valioso.
Onde elas estão, o rio está saudável. Onde elas desapareceram, algo deu errado.
A floresta que cresce dentro d'água
O Araguaia não é apenas o canal de água que vemos nos mapas. Nas épocas
de cheia, ele transborda para uma vasta planície de inundação que pode alcançar
dezenas de quilômetros de largura. Essa planície — chamada de 'igapó' nas
partes alagadas de forma permanente e 'várzea' nas que secam no verão — é um
ecossistema em si mesmo, distinto do rio em condições normais.
Durante a cheia, os peixes entram nas florestas alagadas para se
alimentar dos frutos que caem das árvores e dos invertebrates que vivem na
serapilheira inundada. É um festim anual que engorda e permite que espécies
como o tambaqui completem seu ciclo reprodutivo. As árvores, por sua vez,
dependem dos peixes para a dispersão de suas sementes — num processo chamado de
ictiocoria, a dispersão de sementes por peixes, que é fundamental para a
regeneração da vegetação ribeirinha.
Essa dependência mútua entre a floresta e o rio é um dos aspectos mais
fascinantes da ecologia amazônica e cerradense. Quando a floresta ribeirinha é
desmatada, o rio perde mais do que sombra: perde a rede de alimentação que
sustenta boa parte de seus peixes.
Jacarés e quelônios: os antigos habitantes
O Araguaia é também um dos últimos redutos de grandes populações de
jacarés-açu e jacaré-coroa. Os jacarés, assim como as piranhas, carregam um
estigma cultural que não faz jus ao papel que desempenham no ecossistema. Eles
regulam as populações de peixes, controlam roedores nas margens e, com seus
movimentos no fundo lamacento, contribuem para a oxigenação e a mistura das
águas.
As praias do Araguaia são também locais de desova de quelônios —
tartarugas e tracajás que sobem às margens arenosas entre os meses de julho e
setembro para botar seus ovos. O Projeto Quelônios da Amazônia, coordenado pelo
Ibama, monitora esses ninhos em diversas praias do rio, protegendo os ovos de
predadores e de ações humanas inadequadas.
Quem visita o Araguaia durante a época de desova e testemunha as
tartarugas saindo da água ao entardecer para cavar seus ninhos na areia quente
tem a rara sensação de estar vendo algo que acontece há milhões de anos,
praticamente sem mudanças.
O Araguaia que está em risco
Como todo grande rio brasileiro, o Araguaia enfrenta ameaças sérias. O
desmatamento das matas ciliares — as florestas que crescem nas margens dos rios
— é o problema mais urgente. Sem essa vegetação de proteção, o solo erodido
pelo agronegócio e pela pecuária escorrega para dentro do rio, aumentando a
turbidez da água, entupindo os habitat reprodutivos dos peixes e alterando todo
o equilíbrio do ecossistema.
A pesca predatória, especialmente com o uso de redes e de métodos
proibidos em períodos de reprodução, é outro fator de pressão. A construção de
barragens em afluentes do Araguaia, embora de escala menor do que as grandes
usinas amazônicas, também fragmenta o habitat dos peixes migradores, que
precisam percorrer longas distâncias para completar seu ciclo reprodutivo.
Mas o Araguaia também resiste. Comunidades ribeirinhas organizadas,
projetos de pesca sustentável, áreas de proteção e o crescente interesse pelo
turismo ecológico são forças que atuam em sentido contrário. O rio ainda tem
muito para mostrar — e ainda há tempo para garantir que continue mostrando.
Como chegar e o que esperar
As cidades de Aruanã e Britânia, em Goiás, são os principais pontos de
acesso para quem quer conhecer o Araguaia no Centro-Oeste. No período das
praias, entre julho e setembro, o rio vive uma temporada de turismo intenso,
com famílias acampando nas ilhas e barcos de pesca atravessando as águas. É um
Araguaia festivo e caloroso.
Para quem busca o Araguaia selvagem, a melhor época é justamente fora do
verão das praias. Nos meses de novembro a março, quando o rio enche e
transborda para a várzea, a fauna aquática está no auge de sua atividade. As
ariranhas pescam, os jacarés descansam nas margens, as garças e biguás cobrem
as árvores alagadas. É o Araguaia em sua forma mais plena — e mais reveladora
de seus segredos submersos.
Equipe Trilhas do Planalto
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