Pequi: o fruto que divide opiniões, alimenta o sertanejo e sustenta o Cerrado

Não existe fruto mais goiano, mais cerratense, mais disputado e mais incompreendido do que o pequi. Para quem nunca comeu, o cheiro é forte demais. Para quem cresceu no Cerrado, não há cheiro melhor no mundo.

Há um teste infalível para saber se uma pessoa tem raízes no Cerrado. Não é o sotaque, nem o conhecimento do bioma, nem o amor pelo paisagismo retorcido das chapadas. É a reação ao cheiro do pequi cozinhando. Para quem chegou de fora, aquele aroma intenso, persistente, que impregna a roupa e a memória, pode ser perturbador. Para quem nasceu no Centro-Oeste, é o cheiro de casa, de domingo, de festa, de infância. Essa divisão de reações — tão física, tão imediata — diz muito sobre o que é o pequi: um fruto que não pede licença.

O pequizeiro (Caryocar brasiliense) é uma árvore de até 12 metros de altura, copa ampla, tronco tortuoso — tão cerratense na forma quanto o lobo-guará no comportamento. Está presente em praticamente todas as fitofisionomias do bioma, do campo limpo ao cerradão, e ocorre em doze estados brasileiros: Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Tocantins, Distrito Federal, Bahia, Piauí, Maranhão, Ceará, São Paulo e Pará. É difícil encontrar uma árvore mais genuinamente brasileira.

A safra que move o sertão

A safra do pequi vai de outubro a janeiro no pico, mas em maio ainda é possível encontrar os últimos frutos em algumas regiões do Centro-Oeste — especialmente nas altitudes mais elevadas das chapadas goianas e mineiras, onde a maturação é mais tardia. É um momento de encerramento de ciclo, em que as comunidades que vivem do extrativismo fazem as últimas coletas, os mercados locais vendem os frutos com preço mais alto, e as cozinhas do interior já se preparam para o intervalo até a próxima temporada.

A coleta do pequi é feita diretamente do chão — o fruto cai maduro e é apanhado antes que os animais o levem. Nas comunidades tradicionais do norte de Minas Gerais, de Goiás e do Tocantins, essa coleta é uma atividade familiar, muitas vezes ritualizada: as famílias saem juntas ao amanhecer, percorrem os trechos de cerrado onde conhecem cada pequizeiro, e retornam carregadas com sacolas e baldes. O conhecimento de onde estão as melhores árvores, quais produzem mais, quais têm polpa mais espessa, é passado de geração em geração como um patrimônio invisível mas precioso.

O pequi é chamado de “ouro do Cerrado” por seu valor econômico e nutricional. Da árvore se aproveita praticamente tudo: fruto, semente, casca e óleo — cada parte com um uso diferente na culinária, na medicina popular e no artesanato.

Uma única árvore adulta pode produzir até 2.000 frutos por safra em condições ideais, embora a média real nas áreas de Cerrado nativo seja bem mais modesta. O caroço do pequi — que não é bem um caroço, mas sim um pirênio com espinhos microscópicos internos que causam lesões dolorosas na língua de quem não sabe comer o fruto — guarda a amêndoa, rica em óleos e proteínas. A polpa amarela que envolve esse caroço é o que se come, raspada delicadamente com os dentes, e é rica em betacaroteno, vitamina C e ácidos graxos.

O pequi e a fauna: uma aliança de 10 milhões de anos

Para muito além da mesa humana, o pequizeiro é uma das plantas mais importantes do Cerrado na sustentação da fauna. Suas flores grandes, brancas e aromáticas, que aparecem entre setembro e novembro, são um verdadeiro imã para polinizadores noturnos — principalmente morcegos e mariposas, que se banqueteiam com o néctar abundante enquanto transportam o pólen de flor em flor.

Os frutos maduros, que caem entre outubro e janeiro, alimentam uma lista generosa de espécies: cutias, pacas, veados, antas, e especialmente o queixada (Tayassu pecari) e o cateto (Pecari tajacu), que consomem tanto a polpa quanto a amêndoa interna, sendo dispersores eficientes das sementes. A anta, com seu aparelho digestivo robusto, engole os pirênios inteiros e os defeca longe da planta-mãe — um serviço de plantio gratuito que o pequizeiro recebe há milênios.

Mesmo depois que os frutos acabam, o pequizeiro continua sendo útil para a fauna. As flores atraem uma grande variedade de abelhas nativas durante a floração. Os troncos velhos e ocos servem de abrigo para morcegos, corujas e pequenos mamíferos. E a copa densa, mesmo quando sem frutos, oferece sombra e pousio para inúmeras aves.

Sabia que? A casca do caroço do pequi — essa estrutura espinhosa que tanto pega os desavisados — tem propriedades medicinais documentadas pela medicina tradicional do Cerrado e estudadas pela ciência. Extratos da casca apresentam compostos com atividade anti-inflamatória, antifúngica e potencialmente antitumoral. A pesquisa com os compostos do pequi é uma das frentes mais ativas da fitoquímica brasileira.

Ameaçado pelo próprio valor

Paradoxalmente, a importância cultural e econômica do pequi não tem sido suficiente para protegê-lo. Com o avanço do agronegócio sobre o Cerrado, milhares de hectares de cerradão com pequizeiros adultos foram derrubados nas últimas décadas. A árvore cresce lentamente — pode levar mais de 10 anos para começar a produzir frutos de forma significativa —, o que torna sua recuperação em áreas desmatadas um processo longo e incerto.

Há também um problema menos visível: o extrativismo sem manejo adequado. Em algumas regiões, a coleta intensiva e a remoção das sementes sem reposição estão comprometendo a regeneração natural das populações de pequizeiros. Sem jovens árvores para substituir os adultos, a produção futura está ameaçada.

A boa notícia é que iniciativas de manejo sustentável, conduzidas por cooperativas de agroextrativistas em parceria com institutos de pesquisa, estão desenvolvendo técnicas para conciliar coleta, conservação e renda. O pequi que chega à mesa dos goianos — e que, cada vez mais, chega às prateleiras de lojas especializadas no Sul e Sudeste sob a forma de óleo, licor e conserva — pode e deve ser um vetor de conservação do bioma, não de sua destruição. Para isso, é preciso que quem come saiba de onde vem. E quem colhe, saiba cuidar.


Equipe Trilhas do Planalto 

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