O lagarto-teiú: o rei dos campos secos e o onívoro que julho revela

Ele pode ter até 1,4 metro de comprimento, comer de frutas a carcaças, dispersar sementes como um mamífero e resolver problemas com uma inteligência que surpreende pesquisadores. O teiú é o réptil mais subestimado do Cerrado — e julho é o mês em que ele se revela.

Há uma cena que qualquer morador do interior do Centro-Oeste reconhece: um lagarto enorme, listrado de preto e branco, atravessando a estrada de terra com aquele andar deliberado e levemente altivo, a cauda grossa varrendo o chão de um lado para o outro, a língua bífida testando o ar. Ele para no meio da estrada, olha para o carro com uma expressão que não chega a ser curiosidade — é mais avaliação —, e decide, com soberania, se vai continuar ou não. Geralmente continua, no seu ritmo, sem pressa.

Esse é o teiú (Salvator merianae) — e aquela atitude no meio da estrada não é acidente de personalidade. É o comportamento de um animal que, ao longo de milhões de anos de evolução, aprendeu que o melhor investimento é a confiança na própria capacidade de reagir, não o gasto energético do pânico permanente.

O animal e sua escala

O teiú pode atingir até 1,4 metros de comprimento, da cabeça à ponta da cauda. Possui corpo robusto, escamas ásperas e cauda longa e musculosa. A coloração varia, mas geralmente é escura com manchas amarelas ou brancas que formam o padrão listrado característico.

É o maior lagarto do Brasil e um dos maiores das Américas — e também um dos mais amplamente distribuídos, ocorrendo da Amazônia aos pampas gaúchos, do litoral atlântico às bordas do Pantanal. No Cerrado, é presença ubíqua em qualquer trecho de campo aberto, borda de mata, margem de estrada ou área de transição. É o lagarto que mais pessoas já viram sem necessariamente saber que viram.

O paradoxo de julho

Aqui há uma informação que surpreende quem associa o teiú ao campo seco de julho: os teiús são répteis de hábitos diurnos, mais ativos durante o dia nos meses entre agosto e abril. Quando a mudança de clima chega, buscam abrigo em tocas cavadas na terra nos períodos de seca ou frio. Dessa forma, o período de inatividade em que os animais se mantêm nos seus abrigos é entre maio e julho, havendo queda metabólica ou depressão metabólica, deixando a temperatura corpórea se equilibrar com a do ambiente. 

Julho, portanto, é tecnicamente o final do período de menor atividade do teiú — não seu auge. Mas é também o momento em que os primeiros indivíduos começam a emergir das tocas nas horas mais quentes do dia, aproveitando o sol intenso do inverno seco para retomar a termorregulação. Nas regiões mais quentes do Cerrado — norte de Goiás, sul do Tocantins, Mato Grosso —, onde as temperaturas de julho ainda são altas o suficiente, os teiús nunca chegam a hibernar completamente, e julho já os encontra em atividade plena.

É nesse contexto que a observação de um teiú em campo aberto de julho tem algo de especial: você está vendo um animal retomando seu mundo, calibrando seus sistemas após semanas de metabolismo reduzido, saindo da toca com a fome de meses para compensar.

Uma dieta que não conhece limites

O hábito alimentar do teiú é caracterizado por ser amplamente diverso, variando entre animais — invertebrados e vertebrados —, carcaças, ovos e frutas. É considerado um onívoro com estratégia generalista e oportunista, alimentando-se de acordo com os recursos disponíveis no local. 

Esse perfil alimentar é, em si mesmo, uma proeza evolutiva. A maioria dos lagartos é especialista: insetos, ou plantas, ou pequenos vertebrados. O teiú come tudo. Insetos e larvas quando são abundantes. Ovos de aves e répteis quando os encontra — e os encontra com frequência, pois o olfato aguçado e a língua sensorial permitem detectar ninhos enterrados a vários centímetros de profundidade. Pequenos roedores, pássaros jovens, anfíbios. Frutas maduras — especialmente as grandes e carnosas, como as do pequizeiro e do araçá. E carcaças de animais mortos, cumprindo uma função de limpeza ecológica que poucos reconhecem como serviço ambiental.

Apesar da dispersão de sementes feita pelo teiú configurar-se um processo pouco efetivo em comparação com mamíferos frugívoros, torna-se extremamente importante especialmente para espécies vegetais com sementes adaptadas para serem dispersadas por animais já extintos — dependendo assim de organismos oportunistas como o teiú — e em ecossistemas instáveis, onde nem todas as espécies dispersoras conseguirão desempenhar sua função durante o ano todo. 

Essa última parte merece destaque. Com a extinção da megafauna americana no final do Pleistoceno — as preguiças gigantes, os mastodontes, os toxodões —, muitas plantas perderam seus dispersores primários. Algumas dessas plantas ainda produzem frutos grandes, de polpa densa, que nenhum animal atual consegue engolir inteiro com facilidade. São os chamados "frutos anacrônicos" — adaptados a animais que não existem mais. O teiú, com sua boca relativamente grande e seu apetite indiscriminado, é um dos poucos dispersores sobreviventes capaz de movimentar essas sementes, ainda que de forma parcial. É um serviço ecológico prestado por um animal que, biologicamente, está fazendo o papel de gigantes extintos.

O teiú come o que o Pleistoceno deixou para trás. É o herdeiro acidental de um papel que foi criado para animais três vezes maiores — e está cumprindo esse papel com a eficiência silenciosa de quem nunca precisou de reconhecimento para trabalhar.

A inteligência que surpreende

O teiú tem sido objeto de pesquisas sobre cognição em répteis que estão mudando a forma como a ciência pensa sobre inteligência animal. Estudos experimentais mostram que ele é capaz de aprender por observação — copiando comportamentos de outros indivíduos —, de resolver problemas novos que nunca encontrou antes, e de memorizar soluções por períodos prolongados.

Pesquisadores que trabalham com teiús em cativeiro descrevem animais que aprendem rapidamente a associar pessoas específicas a eventos positivos — como alimentação —, que desenvolvem rotinas e parecem se incomodar genuinamente com alterações nessas rotinas, e que exploram ativamente ambientes novos com uma metodicidade que lembra a de mamíferos. São comportamentos que, em um mamífero, chamaríamos de inteligência sem hesitar. Em um réptil, ainda nos causam surpresa — o que diz mais sobre nossos preconceitos taxonômicos do que sobre as capacidades do animal.

Status e conservação: O teiú foi avaliado em 2014 e classificado como Não ameaçado — Menor risco pela Lista Vermelha da IUCN. Essa estabilidade pode estar associada à sua alimentação generalista e habitat variado, que permitem às populações resistir a diversas ameaças como predação e caça. É uma das poucas boas notícias da fauna do Cerrado: um animal grande, visível e ecologicamente importante que ainda mantém populações robustas mesmo em paisagens parcialmente alteradas. Que assim continue. 


Equipe Trilhas do Planalto

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