Bacurau e curiango: as aves-fantasma do Cerrado que ninguém vê de dia

Você provavelmente já passou a poucos metros de um sem nunca saber. Camuflados com tanta perfeição que desaparecem mesmo a céu aberto, os caprimulgiformes do Cerrado vivem uma vida quase invisível — até a noite cair e seus cantos tomarem conta do campo.

Há uma experiência que muitos motoristas do interior do Centro-Oeste já tiveram sem entender completamente o que viram: dirigindo por uma estrada de terra à noite, os faróis iluminam dois pontos vermelho-alaranjados brilhando no chão, exatamente no meio da pista. São olhos. Quando o carro se aproxima, o vulto que os carrega levanta voo em silêncio quase absoluto, desaparece na escuridão lateral, e o motorista segue viagem se perguntando o que era aquilo.

Era, quase certamente, um bacurau.

A família que ninguém vê de dia

Os bacuraus e curiangos são aves noturnas pertencentes à família Caprimulgidae e ordem Caprimulgiformes, caracterizadas por asas longas, pernas curtas e bicos muito curtos. São distribuídos por todo o globo, com exceção da Antártida. O nome científico da ordem carrega uma história curiosa e equivocada: o nome latim caprimulgus significa "chupa-cabras", devido ao antigo conto popular de que essas aves chupavam o leite de cabras — uma lenda que atravessou continentes e séculos sem nenhuma base biológica, mas que sobrevive até hoje em expressões populares e até no nome de uma criatura mítica latino-americana completamente diferente. 

A verdade é bem menos sobrenatural e igualmente fascinante: essas aves são principalmente insetívoras, encontradas mais comumente em campos abertos com alguma vegetação e próximos a pastos. Costumam nidificar no chão, e possuem hábitos noturnos e crepusculares, usando de dia suas plumagens crípticas para se camuflarem com galhos e folhas secas. 

A camuflagem mais perfeita do Cerrado

O curiango, também chamado de bacurau, vive no chão e exibe uma excelente camuflagem com a folhagem seca. Durante o dia, só é visto se for espantado, e nestas ocasiões voa curtas distâncias e logo volta a se esconder em meio à vegetação rasteira. Essa estratégia de sobrevivência — ficar absolutamente imóvel, confiando inteiramente na camuflagem — é tão eficiente que pesquisadores e observadores experientes frequentemente passam a centímetros de um bacurau pousado sem percebê-lo. 

O bacurau pertence à família Caprimulgidae e se destaca por sua capacidade de camuflagem entre folhas secas ou troncos, dificultando seu avistamento durante o dia. A plumagem é um mosaico de marrons, cinzas e bege que reproduz com precisão impressionante a textura de folhas secas e cascas de árvore — exatamente o ambiente que domina o Cerrado em julho, no auge da estação seca. É como se a evolução tivesse desenhado essa ave especificamente para o inverno cerratense. 

O bacurau não esconde porque tem medo. Esconde porque aprendeu, ao longo de milhões de anos, que a melhor defesa contra um predador é nunca ser notado em primeiro lugar. É uma estratégia de invisibilidade tão bem-sucedida que a própria ciência demorou para compreender completamente.

O canto que dá nome ao animal

O curiango é uma ave noturna que mede cerca de 25 centímetros de comprimento e pesa até 90 gramas. Seus nomes populares estão relacionados com a sua vocalização, que emite durante toda a noite. Assim como o carcará, que já discutimos em edição anterior, o nome do bacurau é onomatopaico — reproduz o som que o animal faz. São aves de hábitos noturnos, de asas longas e pernas curtas, que fazem o ninho perto do solo e que se alimentam de insetos. Sua plumagem é acinzentada e seu canto é um grito penetrante e repetido durante horas pela noite. 

Em uma noite de campo aberto no Cerrado, o canto do bacurau é um dos sons mais constantes e mais identificáveis da paisagem sonora — um chamado repetitivo, às vezes descrito como "bem-te-vi" invertido, outras vezes como um assobio melancólico que se estende pela escuridão. Para quem vive próximo ao campo, é um som tão familiar quanto o coro dos grilos ou o latido distante de um cachorro — parte do fundo sonoro que marca as noites do interior sem que ninguém precise prestar atenção consciente.

O urutau: o primo que finge ser tronco

Vale a distinção: enquanto o bacurau e o curiango pertencem à família Caprimulgidae, o urutau (Nyctibius griseus) pertence a uma família relacionada mas distinta, os Nyctibiidae. Ambos possuem corpo compacto, plumagem críptica e grande capacidade de permanecer imóveis durante longos períodos, características associadas principalmente à camuflagem. O urutau apresenta cabeça relativamente grande, olhos proeminentes e uma postura característica: empoleira-se verticalmente sobre tocos ou galhos, com o bico pequeno e boca ampla. Sua coloração segue o padrão de "mimetismo de casca", com tons de cinza e marrom, além de riscas que reproduzem texturas dos troncos. 

O urutau leva a camuflagem a um nível ainda mais extremo do que o bacurau: ao se empoleirar verticalmente sobre um toco e esticar o pescoço, com o bico apontado para cima, ele se transforma visualmente na extensão do próprio tronco. Pesquisadores que estudam essas aves relatam que mesmo procurando ativamente, com a localização aproximada conhecida, é comum levar minutos para finalmente distinguir o animal da madeira ao redor.

O guardião noturno dos insetos

Para além do mistério e da camuflagem, os caprimulgiformes prestam um serviço ecológico de imensa importância para o Cerrado. O bacurau é um verdadeiro guardião noturno dos ecossistemas brasileiros, controlando as populações de insetos. Voando com a boca aberta — adaptação anatômica notável, já que essas aves têm bicos minúsculos mas aberturas bucais surpreendentemente largas —, eles capturam mariposas, besouros voadores, cupins aladas e uma variedade enorme de insetos noturnos enquanto voam em padrões irregulares e silenciosos sobre o campo aberto. 

Essa predação noturna complementa o trabalho que os morcegos insetívoros realizam nas mesmas horas — e juntos, aves e morcegos formam um sistema de controle biológico que mantém as populações de insetos do Cerrado dentro de limites que a vegetação consegue suportar sem danos excessivos.

A ameaça mais simples e mais letal

Algumas espécies de caprimulgídeos estão ameaçadas de extinção, e acredita-se que atropelamentos por carros sejam uma das principais causas de mortalidade para muitos membros da família por causa do hábito de dormirem em estradas. É uma ironia cruel: a mesma estrada de terra cujo asfalto retém calor à noite — tornando-a um local atrativo para essas aves termorregularem — é também a fonte de morte mais comum para elas, em colisões com veículos que muitas vezes nem percebem o que atropelaram. 

Em julho, com as noites mais frias do auge da seca, esse comportamento de buscar superfícies que retêm calor se intensifica — e com ele, infelizmente, o risco de atropelamento nas estradas que cortam o Cerrado.

Como observar: A melhor forma de notar um bacurau é pelo reflexo dos olhos sob luz de farol ou lanterna durante uma caminhada noturna em estrada de terra — eles brilham em vermelho-alaranjado característico. Durante o dia, observe atentamente o chão sob árvores isoladas em campo aberto: se algo se mover de repente bem perto dos seus pés e voar baixo por uns metros antes de "desaparecer" novamente, você provavelmente acabou de espantar um bacurau que estava ali o tempo todo, invisível, observando você primeiro.


Equipe Trilhas do Planalto

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