Imagine caminhar por uma trilha no Cerrado.
Você observa as árvores, procura aves entre os galhos, fotografa flores e tenta identificar algum animal pelo caminho.
Mas existe uma parte inteira daquele ecossistema que provavelmente passa despercebida.
Ela está debaixo dos seus pés.
Dentro e sobre o solo existe uma comunidade formada por inúmeros organismos, desde pequenos animais visíveis a olho nu até organismos microscópicos.
Formigas, cupins, besouros, ácaros, colêmbolos, minhocas e outros invertebrados fazem parte dessa comunidade. A Embrapa mantém, inclusive, um laboratório dedicado ao estudo da ecologia e da fauna do solo, incluindo macrofauna, mesofauna e nematoides.
Essa biodiversidade subterrânea desempenha funções fundamentais para o funcionamento do Cerrado.
Solo não é simplesmente terra
Quando olhamos para o chão, podemos ter a impressão de que estamos diante de um material uniforme.
Não estamos.
O solo é formado por partículas minerais, matéria orgânica, água, ar e uma enorme diversidade de organismos.
Folhas que caem das árvores não desaparecem simplesmente.
Elas entram em um processo de decomposição.
Microrganismos e pequenos animais participam da fragmentação e transformação desse material, permitindo que nutrientes voltem a circular no ambiente.
É um ciclo permanente.
Uma folha que cai hoje pode, depois de passar por diferentes processos, contribuir para o crescimento de outra planta.
A fauna do solo é enorme
A expressão “fauna do solo” reúne uma diversidade impressionante de organismos.
Entre eles estão ácaros, colêmbolos, formigas, cupins, besouros, aranhas, minhocas, nematoides e outros grupos.
Alguns vivem principalmente na camada superficial, associada à serrapilheira.
Outros escavam galerias.
Há ainda organismos microscópicos que dependem das condições do solo para sobreviver.
A Embrapa destaca que esses organismos ocupam diferentes camadas e desempenham funções relacionadas à decomposição, ciclagem de nutrientes e estrutura do ambiente.
Ou seja: o solo possui seus próprios habitantes.
Cupins: muito mais do que aqueles montes no campo
Os cupinzeiros são uma das estruturas mais facilmente reconhecidas em determinadas paisagens do Cerrado.
Mas os cupins não devem ser vistos apenas como “insetos que comem madeira”.
Existem muitas espécies e diferentes estratégias de vida.
Algumas constroem estruturas visíveis acima do solo. Outras vivem de maneira muito mais discreta.
Ao movimentar partículas, construir galerias e utilizar matéria orgânica, esses animais podem influenciar características físicas e biológicas do solo.
Os cupinzeiros também podem criar microambientes diferentes do terreno ao redor.
E as formigas?
As formigas são outro grupo extremamente importante.
Existem espécies predadoras, herbívoras, detritívoras e com diferentes relações ecológicas.
Algumas transportam sementes.
Outras participam da decomposição de matéria orgânica.
Algumas ajudam a controlar populações de outros insetos.
A diversidade desses animais significa que não existe uma única “função das formigas”.
Cada espécie ocupa seu próprio espaço na rede ecológica.
O trabalho invisível da decomposição
Imagine uma folha caindo no chão.
Ela ainda contém matéria orgânica e nutrientes.
Com o passar do tempo, fungos e outros organismos começam a colonizá-la. Pequenos animais podem fragmentá-la. Microrganismos continuam o processo.
Gradualmente, o material é transformado.
Parte dos nutrientes volta ao solo e pode ser reutilizada pelas plantas.
Esse processo é fundamental para manter o funcionamento dos ecossistemas.
Sem decomposição, a matéria orgânica se acumularia e os nutrientes permaneceriam presos em diferentes formas.
O que parece simplesmente “folha velha” é, na realidade, uma etapa de um grande ciclo.
As raízes também têm parceiros
A vida subterrânea não envolve apenas animais.
Fungos e raízes de plantas podem estabelecer associações extremamente importantes.
As micorrizas são um exemplo.
Nessas associações, determinados fungos vivem em relação íntima com as raízes das plantas, e essa interação pode favorecer a aquisição de nutrientes e água.
Para uma planta que vive em condições ambientais desafiadoras, relações desse tipo podem ser particularmente importantes.
Isso ajuda a mostrar que uma árvore do Cerrado não é apenas aquilo que conseguimos enxergar acima do solo.
Existe uma comunidade ao redor e dentro de suas raízes.
Um solo biologicamente ativo
A presença e a diversidade dos organismos do solo podem fornecer informações sobre a condição daquele ambiente.
A Embrapa trabalha com a fauna do solo justamente para avaliar aspectos relacionados à qualidade biológica dos solos.
Pesquisas e materiais técnicos também destacam que a fauna edáfica pode participar de processos como decomposição da matéria orgânica, disponibilização de nutrientes, estruturação do solo e controle de determinados organismos.
Isso significa que observar o solo pode ser uma maneira de compreender a saúde de um ecossistema.
Não é suficiente olhar apenas para as árvores.
O que acontece quando o solo é degradado?
A retirada da vegetação modifica completamente as condições do ambiente.
Sem cobertura adequada, o solo pode ficar mais exposto ao sol, à chuva e à erosão.
A compactação também pode reduzir espaços importantes para circulação de ar e água.
Essas alterações podem afetar os organismos que vivem no solo.
E, quando a comunidade subterrânea muda, processos ecológicos associados à decomposição, ciclagem de nutrientes e estruturação também podem ser alterados.
Por isso, a conservação do solo é parte fundamental da conservação da biodiversidade.
O solo do Cerrado também guarda uma história
O Cerrado possui solos bastante variados, e suas plantas desenvolveram diferentes estratégias para sobreviver nessas condições.
As raízes profundas de determinadas espécies são apenas uma parte dessa adaptação.
Existe também uma comunidade subterrânea que participa da transformação da matéria orgânica e da movimentação de nutrientes.
É um sistema muito mais complexo do que a aparência do terreno permite imaginar.
Uma caminhada pode começar de outro jeito
Na próxima trilha, experimente parar por alguns minutos e olhar para baixo.
Observe a serrapilheira.
Veja pequenos caminhos de formigas.
Procure sinais de atividade de cupins sem mexer nas estruturas.
Observe folhas em diferentes estágios de decomposição.
Perceba como o solo muda de um ponto para outro.
Não é necessário tocar ou coletar organismos.
A observação já revela uma dimensão diferente da paisagem.
O Cerrado também vive debaixo dos nossos pés
Talvez essa seja uma das melhores formas de compreender a biodiversidade.
Nem toda vida é grande.
Nem toda espécie chama atenção.
Nem todo processo ecológico acontece diante dos nossos olhos.
Enquanto uma ave canta no alto de uma árvore, uma comunidade inteira trabalha silenciosamente no solo.
Enquanto uma folha seca cai, organismos começam a transformá-la.
Enquanto uma planta cresce, suas raízes estabelecem relações com organismos subterrâneos.
O Cerrado que vemos é apenas uma parte do Cerrado que existe.
A outra parte está escondida.
E ela é fundamental para manter todo o restante funcionando.
Equipe Trilhas do Planalto
0 Comentários