Acredita-se que o melhor lugar para encontrar onças-pintadas na natureza seja o Pantanal, mas o Cerrado tem uma vantagem que surpreende até os especialistas: o bioma tem a maior incidência mundial de onças-pintadas melanísticas — as chamadas onças-pretas. Em média, cerca de 10% das espécies são melanísticas; no Cerrado, a incidência é superior a 40%, a mais alta em qualquer região do planeta.
Ninguém sabe exatamente por quê. A hipótese mais aceita é que o campo aberto do Cerrado, com suas alternâncias de luz e sombra nas formações mais densas, favorece a camuflagem de animais de pelagem escura em determinadas situações de caça. Mas é uma hipótese — o mistério permanece. E é exatamente esse tipo de mistério que torna a onça-pintada do Cerrado um dos animais mais fascinantes e menos compreendidos do bioma.
O que a presença da onça revela
A onça-pintada (Panthera onca) é o maior felino das Américas e o terceiro maior do mundo, atrás apenas do leão e do tigre. Pode pesar até 150 kg e atingir 2,5 metros do focinho à ponta da cauda. Apesar de seu poder, tem suas fragilidades — como precisar de grandes áreas para caçar e reproduzir.
Essa necessidade de espaço é a chave para entender por que a presença da onça-pintada em uma área é um dos mais precisos indicadores de saúde ecológica disponíveis. Uma onça adulta no Cerrado pode precisar de um território de centenas ou até milhares de quilômetros quadrados para sobreviver. Para que esse território exista e funcione, é preciso que haja presas em quantidade suficiente — capivaras, antas, veados, queixadas —, que haja cobertura vegetal adequada para caça e reprodução, que haja corredores de deslocamento entre fragmentos, e que a pressão humana sobre o animal e suas presas seja baixa o suficiente para permitir sua sobrevivência.
Uma onça que circula livremente pelo Cerrado é, portanto, a garantia viva de que todos esses elementos coexistem naquele território. Desde 2023, dados colhidos com o monitoramento via satélite de quatro onças ajudam a indicar corredores ecológicos fora das áreas protegidas do Mosaico Sertão Veredas-Peruaçu que devem ser prioritários para proteger o Cerrado dessa região, dada a forte pressão de desmatamento e a rápida conversão de áreas naturais em extensos monocultivos.
Os corredores que ainda existem — e os que estão sendo perdidos
A eliminação galopante da savana brasileira complica os planos para concretizar uma rede de passagens verdes que reforçaria a conservação da onça-pintada, o maior carnívoro do continente. Entidades civis querem assegurar até 2030 um mega corredor entre áreas conservadas através de países das Américas do Sul e Central para reforçar a sobrevivência no longo prazo de grandes mamíferos — além da pintada, serão amparados animais como a anta, o lobo-guará e o tamanduá-bandeira.
"Grandes impactos como o desmatamento fazem com que os animais se coloquem em riscos desnecessários", alerta o biólogo Felipe Feliciani, analista e responsável pela estratégia para conservação da onça-pintada da WWF-Brasil.
O problema é concreto e mensurável. Só 8,68% do Cerrado é abrigado em unidades de conservação, sendo apenas 2,89% com proteção mais restrita. Metas internacionais de conservação pedem que ao menos 30% da biodiversidade seja formalmente protegida até 2030. Em terras brasileiras, apenas a Amazônia se aproxima desse percentual, com 28,5% em unidades de conservação.
Para a onça-pintada, essa escassez de áreas protegidas significa uma coisa prática e devastadora: a maior parte do território que ela precisa para sobreviver está em propriedades privadas, onde a proteção depende da boa vontade — e muitas vezes do interesse econômico — do proprietário. O território de uma onça monitorada no Mosaico Sertão Veredas-Peruaçu chegou a quase 4.900 km², e mais de 70% dele fica fora da área protegida. "Ele não consegue encontrar o que precisa. E se isso é verdade para um, é verdade para muitos."
Um registro raro e um sinal de alerta
Em maio de 2026, uma onça-pintada melanística foi filmada no oeste da Bahia por câmeras trap do Parque Vida Cerrado — o primeiro centro de conservação e educação socioambiental do oeste baiano. A gerente da instituição Gabrielle Rosa disse que avistamentos de onças têm ficado mais raros, e que o caso do registro obtido é ainda mais difícil devido à condição do animal. A localização exata não foi divulgada por questões de segurança — uma precaução necessária para proteger o animal de caçadores e curiosos que poderiam perturbá-lo.
Esse registro recente é ao mesmo tempo motivo de celebração e de preocupação. Celebração porque confirma que a onça-pintada ainda circula pelo Cerrado baiano, em uma região sob intensa pressão agrícola. Preocupação porque a raridade crescente dos avistamentos sugere uma população que encolhe, fragmenta e perde conectividade com outras populações do bioma.
O Projeto Corredor Ecológico Onça-Pintada
O Projeto de Lei 909/24, em análise na Câmara dos Deputados, cria o Corredor Ecológico Onça-Pintada às margens dos rios Araguaia e Tocantins, em área contínua nos estados de Mato Grosso, Goiás, Tocantins, Pará e Maranhão. O projeto tem como objetivos proteger a onça-pintada e a biodiversidade naquele território, proteger nascentes e paisagens naturais, viabilizar a conexão entre populações e a troca gênica entre diferentes áreas protegidas.
É uma proposta ambiciosa — e necessária. A ciência da conservação é unânime em um ponto: populações isoladas de grandes predadores estão condenadas ao declínio genético e à extinção local no longo prazo. Sem fluxo gênico entre grupos separados por lavouras e rodovias, a consanguinidade aumenta, a adaptabilidade cai, e o risco de colapso populacional cresce a cada geração.
Convivência possível: O Instituto Onça-Pintada desenvolve um programa de certificação de propriedades rurais — o Selo Onça-Pintada — que reconhece fazendas localizadas em áreas de ocorrência da espécie que adotam práticas de conservação do habitat e de minimização de conflitos. É um modelo que transforma o proprietário rural de adversário em parceiro — e que, replicado em escala suficiente, pode costurar os corredores que a legislação ainda não conseguiu garantir.
A onça que ronda o Cerrado em junho, invisível para quase todos, está fazendo o que sempre fez: caçando, se reproduzindo, defendendo seu território. O que mudou não foi ela. Foi a paisagem ao redor — que encolhe, fragmenta e dificulta um percurso que, por direito evolutivo, deveria ser livre. Garantir que ela continue existindo aqui é garantir que o Cerrado continue sendo, de fato, o Cerrado.
Equipe Trilhas do Planalto

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