O Cerrado e a crise climática: o bioma que pode salvar o Brasil — ou afundá-lo

No Dia Mundial do Meio Ambiente, os números que deveriam estar em todos os jornais: o Cerrado estoca mais carbono do que parece, regula o clima de metade da América do Sul, e está sendo destruído a um ritmo que o Brasil ainda não aprendeu a encarar com a seriedade que o assunto exige.

Existe uma narrativa climática no Brasil que precisa urgentemente de revisão. Ela diz, grosso modo, que o problema florestal do país é a Amazônia — e que salvar a Amazônia é salvar o clima. É uma narrativa não errada, mas perigosamente incompleta. Porque enquanto o mundo discute o desmatamento amazônico com a atenção que ele merece, o Cerrado queima, desmatado e ignorado, emitindo toneladas de carbono que nenhuma manchete internacional registra com a mesma urgência.

O desmatamento registrado no Cerrado foi responsável pela emissão de mais de 135 milhões de toneladas de CO₂ entre janeiro de 2023 e julho de 2024 — número que corresponde aproximadamente às emissões anuais do setor industrial brasileiro inteiro. Sozinhas, as savanas — formação mais comum do bioma — emitiram 88 milhões de toneladas nesse período. 

Cento e trinta e cinco milhões de toneladas. De um bioma que a maioria das pessoas ainda associa a "campo seco" e "vegetação rasteira", sem imaginar o que estava estocado naquele solo vermelho e naquelas raízes tortuosas.

O carbono que fica embaixo

O Cerrado não estoca carbono da forma que a Amazônia estoca. Na floresta amazônica, a biomassa aérea — troncos, galhos, folhas — é imensa e visível. No Cerrado, a conta é feita de baixo para cima. "O Cerrado armazena carbono principalmente abaixo do solo", explica pesquisador do IPAM. As raízes profundas, os xilopódios, os sistemas subterrâneos espessados das plantas do bioma acumulam carbono em camadas que podem chegar a vários metros de profundidade — longe dos satélites, longe das medições convencionais, e longe, portanto, das políticas de conservação que ainda não aprenderam a contar o que não se vê. 

Pesquisa recente mostrou que as áreas úmidas do Cerrado — veredas, campos inundáveis, matas de galeria — armazenam mais carbono por hectare do que florestas comparáveis na Amazônia. São os ambientes mais frágeis, mais ameaçados e menos protegidos do bioma — e são exatamente onde o estoque de carbono é mais denso e mais vulnerável à perturbação.

Quando uma vereda é drenada para ampliar uma lavoura, ou quando um campo úmido é convertido em pastagem, o carbono que estava estocado naquele solo por séculos é liberado em poucos anos — às vezes em poucos meses, se vier acompanhado de fogo. É uma dívida climática paga de uma vez, com juros, por uma conversão que durou um final de semana.

O regulador climático que ninguém vê

Além do carbono, o Cerrado desempenha um papel no sistema climático regional que vai muito além de suas fronteiras geográficas. A perda da savana mais biodiversa do mundo, com expressivos estoques de carbono, responsável por significativa produção de água e energia para todo o país, traz um alto custo com graves repercussões por longo tempo, alerta pesquisadora da SBPC. O atual modelo de expansão agrícola no Cerrado, especialmente na região de Matopiba, intensifica a conversão de áreas nativas, contribuindo significativamente para as emissões brasileiras de gases de efeito estufa. 

A vegetação do Cerrado — especialmente nas chapadas e nos campos de altitude — funciona como uma bomba d'água que alimenta os chamados "rios voadores": correntes de vapor d'água que se formam sobre a vegetação transpirante e se deslocam pelo continente, levando umidade do Cerrado para o Sul, o Sudeste e até a Argentina e o Paraguai. Quando a vegetação do Planalto Central é substituída por soja — que transpira de forma muito diferente das plantas nativas —, esse fluxo de umidade se altera. As chuvas mudam de padrão. As secas se intensificam. Os rios que dependem do regime de chuva regulado pelo Cerrado começam a falhar.

"A perda do Cerrado é uma das maiores contribuições do Brasil para a crise climática — e sua preservação, uma das maiores soluções disponíveis. Mas o bioma segue sendo tratado como o parente pobre da conservação nacional."

A boa notícia — e o que ainda falta

Em 2025, o desmatamento no Cerrado registrou queda de 11,49% em relação ao período anterior — o segundo ano consecutivo de redução, após cinco anos de alta entre 2019 e 2023. Com o resultado, foi evitada a emissão de 733,9 milhões de toneladas de CO₂e por desmatamento na Amazônia e Cerrado desde 2022 — valor equivalente às emissões anuais de Espanha e França somadas. 

É uma boa notícia — e merece ser celebrada. A tendência de queda no desmatamento é o resultado de políticas públicas de fiscalização e de pressão da sociedade civil, e mostra que o problema tem solução quando há vontade política de enfrentá-lo.

Mas o contexto importa. Mesmo com a tendência de queda, os índices de desmatamento do bioma permanecem altos. Levantamento do MapBiomas mostrou que 47% do Cerrado é ocupado por áreas de uso antrópico em 2024 — sendo 24% pastagem e 13% agricultura, com a grande maioria da área de plantio destinada à soja. Quarenta e sete por cento. Quase metade do bioma já foi convertido. E o que ainda resta — especialmente nas áreas de maior biodiversidade e maior estoque de carbono — está sob pressão crescente. 

O que o 5 de junho deveria significar para o Cerrado

O Dia Mundial do Meio Ambiente existe para lembrar que a crise ambiental não é abstrata nem distante. Para os brasileiros do Centro-Oeste, ela é a torneira que começa a ter menos pressão em agosto. É o rio que tinha praia em junho e agora tem pedra exposta em março. É a temperatura que sobe meio grau a cada década — imperceptível no dia a dia, devastadora em escala de geração.

O Cerrado não precisa de lamentação. Precisa de política pública à altura do problema — com uma reserva legal de 80% como a da Amazônia, não de 20%. Precisa de financiamento para restauração em escala. Precisa que o mercado de carbono aprenda a precificar o que está enterrado nas raízes de um pequizeiro e no fundo de uma vereda. E precisa, acima de tudo, que os brasileiros — especialmente os que vivem sobre ele — entendam que aquele campo seco de junho não é paisagem de fundo. É o sistema de suporte de vida mais sofisticado que este país possui.

Neste 5 de junho, o Trilhas do Planalto faz um pedido simples: que o Cerrado ocupe, nas conversas sobre crise climática no Brasil, o espaço que os seus 135 milhões de toneladas de CO₂ — e os bilhões de toneladas que ainda guarda no solo — merecem. Porque o bioma que pode afundar o Brasil pelas emissões que gera quando é destruído é o mesmo que pode salvá-lo pela água que produz, pelo carbono que estoca e pelo clima que regula quando está em pé.

A escolha, como sempre, é nossa.


Equipe Trilhas do Planalto

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